quarta-feira, 17 de maio de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: AUSÊNCIA



O quadriculado da camisa xadrez, feita sob medida, o deixou perplexo.
Um quadriculado que confundia o olhar, a escuta.
Sua atenção perdera-se no entrecruzamentos das linhas.
Aterrorizado, percebeu o abismo entre os dois. Encontravam-se desencontrados demais.

Não fora a primeira vez que percebera sua ausência... sua e dele... dois ausentes na sala.
A ausência o deixava atento demais, o ensurdecia, o empurrava a defender-se de uma briga, tal qual soldado convocado a travar uma batalha que não compreendia.
Talvez fosse a ausência uma representação mesmo do quão diferentes eram os dois. Apenas suposições que forçava para um sentido, qualquer sentido possível. Quão forte se fazia nele a necessidade de sentir algo para além do vazio que se entranhava.

Naquele momento se deu conta que não ouvia mais, não observava mais, não sentia mais.
Silêncio e... nada... apenas o vazio ensurdecedor da ausência.

E no pavor das linhas que traçavam o quadriculado da camisa xadrez de alfaiataria, teve vontade de gritar. Segurou-se apenas e, ao final, foi tomar um café quente. A noite parecia mais fria que o habitual.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).