sexta-feira, 16 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: XILOGRAVURA



"Eu penso que para você também vai ser difícil."

Um instante, dentro do tempo analítico, que sou convidado a fazer parte.
No quadro delirante, na defesa contra uma agressividade terrorífica e sem trégua, acabou por fechar-se diante de qualquer possibilidade de relação. Para sentir, corta a própria carne, agride-se.
O mergulho vertical em busca de sentido é sempre difícil, para ambos. O mergulho vertical passa a ser solicitado em tímido pedido de ajuda. Estamos prontos. O trabalho foi longo para que pudéssemos chegar a esse estado de confiança mútua. Nos confiamos.

Quando saímos da horizontalidade do fenômeno, da fenomenologia do sintoma, e nos permitimos adentrar na verticalidade da lógica produtora, passamos a entrever um sentido. O analista não tem certeza, não pisa em chão sólido... Ele não sabe. Vai tecendo construções possíveis na desconstrução do fenômeno sintomático, ao mesmo tempo que vai-se construindo um jeito outro, junto, sem a ilusão de mudança ou transformação - outro jeito a mais, junto do jeito anterior.
A escuta vertical, a analítica, faz surgir o sentido pelo avesso, feito xilogravura.
Trabalhando no impossível, do ponto de vista do olhar alienante, o analista não desiste - briga com o destino.

Assim é descrita uma tentativa anterior, pautada em miscelânea metafísica e neurolinguística: "Sorria, sorria sempre, pois o mundo está desabando... Não existia ouvido ali..."

Senta-se no divã e, num longo suspiro, como a puxar ar antes do mergulho, apresenta a possibilidade de compartilhar, de me inserir. Nos confiamos, enfim. A boca começa a contar a própria história ao ouvido deste Outro.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).