quinta-feira, 16 de junho de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ENSAIO DE UMA SEPARAÇÃO



Houve um tempo em que ele tentava se aproximar, em um impulso de resgatar restos daquela relação.

Desde que a conhecera, sempre soube de algo estranho nela. Optou por cegar-se.
De uma cultura diferente da dele, ela sempre foi calma demais, morna demais, passiva demais. Às vezes, todo o escondido dentro dela explodia em um acesso de fúria, de loucura, de extremo.

Agora, ao observar aquele corpo nu, sobreposto à cama, ele a vê nos encontros sociais, estranhamente recolhida em um canto, a sorver bebida alcoólica e apresentar um olhar no vazio, sob a moldura de um sorriso plástico... "Tudo bem... Está tudo bem...". Ele se compadece, às vezes a odeia profundamente, odiando-se também, por sustentar aquela situação. A justificativa dos dois filhos já não adianta mais - é uma farsa, ele sabe. Em verdade, sente-se acuado por ser o alicerce da vida daquela estranha próxima. Uma estranha tão próxima. Ela, ao passar do tempo, foi-se fusionando a ele. E ele permitiu.

Sai de vez em quando. Se vê mergulhando em aventuras curtas, vazias, recheadas de sexo sem sentido. Machuca e se machuca. E ela sempre ali... "Tudo bem... Está tudo bem...".

No inferno íntimo, observando aquele corpo nu sobreposto à cama, estranhamente fusionado em suas entranhas, esfrega as mãos no rosto como a tentar retirar a própria pele. E, em um ímpeto de profunda angústia e desespero, veste o casaco e sai para beber alguma coisa...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).