segunda-feira, 16 de maio de 2016

DOMINGO NO PARQUE



Hélène quer Jean.
Na verdade Hélène quer a cena. Jean há de encaixar-se na cena. Ele tem que se encaixar na cena.
Pouco importa Jean...
Sem a cena perfeita, somente esta infindável ausência...

Há tempos ela desejava a bicicleta. Não era dela, mas pouco importava. Imaginava-se preenchida com a bicicleta, um corpo único a passear pelas ruas e avenidas, solta, livre... Uma cena, única.

O que se passa com Jean?
Pouco importa... Desde que ele se encaixe na cena de Hélène. Cena única, falta de ausência.
Ideais, pensamentos íntimos, um vida diferente da dela... Bobagens... Jean tem que se encaixar na cena.
A cena de Hélène.
Vão assim, passear pelo parque, no domingo perfeito da cabeça de Hélène.
Pedalinho, algodão doce. Seus dedinhos a tocar de leve a superfície da calmaria do lago. Seus pés a tocarem a grama, observadora do beijo ardente do casal que está apaixonado. Para Hélène, o casal tem que estar apaixonado, pouco importa as bobagens de Jean.
Um domingo no parque. Uma perfeita cena de domingo no parque. O fim da ausência em Hélène.

Olha a faca! Olha a faca! Olha o sangue na mão...

Hélène quer o Jean de Hélène. Não há Jean de verdade, há o dela.
O preenchimento da ausência.
Não importa o sangue dos outros.
Bobagens de um Jean outro... Não o Jean dela.