sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: FLOR DE LÓTUS



"Nem todo mundo consegue fingir que existe."
(SIMONE DE BEAUVOIR)


Foi em um desses momentos fugazes, em que a vigília nos desperta do sono...
Sob a coberta xadrez, o corpo quente resistiu a por-se em movimento. Percebia apenas sua existência, dentro do quarto frio de paredes recheadas de surrealidade.
Pensou em nunca mais levantar, ficar ali, debaixo da coberta, com o corpo aquecido.
No esfregar de pernas, sentiu aquela velha estranha sensação da violência do  mundo dos homens pesar sobre os ombros.
Ali, sob a coberta xadrez, mais uma vez sentiu-se violentada.
Desrespeito, imposição, acusação, obrigação... A exigência de ter de ser alguém, ter de se entregar ao outro, ficar feliz por levar uma vida feliz. Nesses momentos, a aparência de ser era invadida pelo desejo de ser ninguém.
Sentiu que tinha cada vez menos cabelos, amarrotada em seu particular rosto mergulhado no travesseiro. Percebia os furúnculos parindo mais furúnculos sobre a pele.
De sobressalto, se viu já na rua, no cotidiano empurra-empurra do encontrão com outras mortais criaturas humanas.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A CORTINA



Por mais de vinte anos serviu aquela casa. Sentia certo orgulho disso.
O uniforme de governanta, sempre bem cuidado, a identificava completamente.
Todo o sentido de ser ela no uniforme de governanta.
Sorriso simpático estampado no rosto a preparar o almoço da família.
Cuidara das três crianças com zelo de mãe que nunca foi.
Depositou-se completamente naquela casa de família, afinal, era a governanta. Soava-lhe sublime e imponente: governanta...

Veio, então, a ofensa.
Deparou-se, chocada, com a cortina nova na sala de estar. Uma nova moldura para a sacada florida por suas flores.
Ela não fora consultada. Como puderam não consultar a governanta? Nunca fora tão desrespeitada.

Não dormiu aquela noite. Teorias e mais teorias passeavam pelo teto de seu quarto de governanta. Conspiração... Ah, sim... Conspiração...

O sorriso simpático transformou-se em verdades secretas, internas... Seu pensamento nunca antes percebido.
As crianças eram dela... Os cardápios sempre foram do desejo dela... A casa era dela... Uma família da governanta...

Empalideceu... A cortina fora trocada.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 16 de outubro de 2016

COMPARAÇÃO COM OS MÉTODOS HIPNÓTICOS E SUGESTIVOS



É sempre bom lembrar...
A psicanálise se diferencia de todos os métodos que empregam a sugestão e a persuasão, posto que não tenta dominar sob a efígie do autoritarismo, nenhum campo psíquico do sujeito. Procura sim, descobrir, tirar o que cobre, as causas dos fenômenos perturbadores e suprimi-los, por meio de uma reconfiguração econômica de suas condições, respeitando as possibilidades. Obviamente, há uma inevitável influência sugestiva da figura do analista, porém orientada para a imersão nas resistências do analisando, como se a regra fundamental do tratamento fosse: resista, resista o máximo que puderes, pois resistindo, revelarás o avesso do que te sustenta. Contra o perigo do falseamento das memórias do sujeito, muitas vezes imputadas pelo terapeuta, há a proteção de um minucioso e prudente manejo da técnica, onde a própria resistência é a entidade protetora contra uma indesejável influência sugestiva.
O exame do reprimido em direção à unificação e à máxima flexibilidade de existência possível do Eu, jamais esquecendo os aspectos econômicos da mente, economia exigida e desperdiçada nos conflitos inevitáveis ao viver, são a finalidade do tratamento, fazendo surgir um sujeito capaz de produzir e gozar, levando-se em conta suas disposições e capacidades. A psicanálise não deveria buscar o impossível do sujeito.
A supressão do sintoma, enquanto fenômeno, não é um fim em si, mas sempre alcançado, desde que o método seja devidamente empregado.
A psicanálise respeita as características individuais, não procurando modificá-las de acordo com as suas ideologias, no que, aliás, se faz imprescindível a análise do analista. A psicanálise procura despertar as iniciativas do sujeito.
Alta costura no lugar do prêt-à-porter. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: XILOGRAVURA



"Eu penso que para você também vai ser difícil."

Um instante, dentro do tempo analítico, que sou convidado a fazer parte.
No quadro delirante, na defesa contra uma agressividade terrorífica e sem trégua, acabou por fechar-se diante de qualquer possibilidade de relação. Para sentir, corta a própria carne, agride-se.
O mergulho vertical em busca de sentido é sempre difícil, para ambos. O mergulho vertical passa a ser solicitado em tímido pedido de ajuda. Estamos prontos. O trabalho foi longo para que pudéssemos chegar a esse estado de confiança mútua. Nos confiamos.

Quando saímos da horizontalidade do fenômeno, da fenomenologia do sintoma, e nos permitimos adentrar na verticalidade da lógica produtora, passamos a entrever um sentido. O analista não tem certeza, não pisa em chão sólido... Ele não sabe. Vai tecendo construções possíveis na desconstrução do fenômeno sintomático, ao mesmo tempo que vai-se construindo um jeito outro, junto, sem a ilusão de mudança ou transformação - outro jeito a mais, junto do jeito anterior.
A escuta vertical, a analítica, faz surgir o sentido pelo avesso, feito xilogravura.
Trabalhando no impossível, do ponto de vista do olhar alienante, o analista não desiste - briga com o destino.

Assim é descrita uma tentativa anterior, pautada em miscelânea metafísica e neurolinguística: "Sorria, sorria sempre, pois o mundo está desabando... Não existia ouvido ali..."

Senta-se no divã e, num longo suspiro, como a puxar ar antes do mergulho, apresenta a possibilidade de compartilhar, de me inserir. Nos confiamos, enfim. A boca começa a contar a própria história ao ouvido deste Outro.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 16 de agosto de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ANTOLOGIA



PASSADO
"Uma gentalha ignorante..."
Assim a família é definida. Uma lógica de "cada um por si".
A carência afetiva predominou, inserida no contexto do crescimento econômico dos negócios.
Dinheiro no lugar de afeto.
Solicitando ser desejada, logo cedo descobriu as artimanhas da sexualidade feminina... Caiu no engodo.
O ódio representou-se em atuações de "quebra-quebra". Uma "barraqueira" querendo brilhar, brilhar, brilhar...
Faltou-lhe o ato de pensar.
Tropeçou e levantou para tropeçar novamente...

PRESENTE
Controlou-se. Aprendeu a controlar-se.
O desejo de "brilhar" não se extingue... Nunca...
Chora sozinha, escondido...
Mas aprendeu a controlar-se.
Está sendo difícil abrir mão da "barraqueira", do ódio que ameça surgir no próximo instante...
Controle, controle, controle...

FUTURO
E veio uma criança. Uma mudança. Uma surpresa. Uma vitória.
Muito cuidadosa com as palavras no sincero e honesto diálogo com a criança.
"Ele não é meu... Ele é dele..."
Saúde.
Uma vitoriosa... Uma criança saudável...
"Sabe (rsrsrs)... Não quero me repetir nele, né!!! (rsrsrs)"
Enfim, ela vai conseguir. Já está conseguindo.
Venceu-se.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sábado, 16 de julho de 2016

NOTA PRÉVIA



Enfim, depois de muita insistência, visitei pela primeira vez um cardiologista.
Uma clínica de especialidades, tranquila e bastante aconchegante, com recepcionistas gracinhas.
O cenário apresentava o clima de uma ótima experiência... Não foi!!!
Cheguei com hora previamente agendada. Não sei porque fazem isso... Fui atendido depois de mais de uma hora de atraso. Quem me conhece sabe: já fiquei irritado.
Ao adentrar na sala do doutor, um senhor de cabelos brancos ensebados, sala agradável por sinal, fui recebido com uma frieza ímpar. O homem não olhou na minha cara, balbuciando palavras que mal se escutavam.
Entendam... Não espero uma abraço carinhoso cheio de "blá, blá, blá", mensagens positivas e sorrisinho cor de rosa histérico... Seria ridículo. Espero o mínimo de empatia, como responder ao "bom dia, doutor" e um aperto empático de mãos. Afinal, a empatia é o prenúncio da cura...
Entendam... Compreendo perfeitamente a loucura da profissão...
Entendam... Insisto em não entender esse tipo de coisa...
Tudo certo. Pressão ótima. Uma batelada de exames a serem feitos. Nenhuma explicação. Nenhuma pergunta. Nenhuma resposta.
Tudo certo. O coração é um órgão, composto de musculatura e artérias.
O coração é também um símbolo ao qual se aglomeram representações múltiplas. Amor, Ódio, Paixão, Estados de Humor, representados ali/aqui.
A experiência, porém, teve utilidade: o doutor me ensinou que o coração é lugar que guarda importante sentimento, a Paciência.
Vou fazer os exames, é claro... E tentar achar um outro ser humano para mostrá-los.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ENSAIO DE UMA SEPARAÇÃO



Houve um tempo em que ele tentava se aproximar, em um impulso de resgatar restos daquela relação.

Desde que a conhecera, sempre soube de algo estranho nela. Optou por cegar-se.
De uma cultura diferente da dele, ela sempre foi calma demais, morna demais, passiva demais. Às vezes, todo o escondido dentro dela explodia em um acesso de fúria, de loucura, de extremo.

Agora, ao observar aquele corpo nu, sobreposto à cama, ele a vê nos encontros sociais, estranhamente recolhida em um canto, a sorver bebida alcoólica e apresentar um olhar no vazio, sob a moldura de um sorriso plástico... "Tudo bem... Está tudo bem...". Ele se compadece, às vezes a odeia profundamente, odiando-se também, por sustentar aquela situação. A justificativa dos dois filhos já não adianta mais - é uma farsa, ele sabe. Em verdade, sente-se acuado por ser o alicerce da vida daquela estranha próxima. Uma estranha tão próxima. Ela, ao passar do tempo, foi-se fusionando a ele. E ele permitiu.

Sai de vez em quando. Se vê mergulhando em aventuras curtas, vazias, recheadas de sexo sem sentido. Machuca e se machuca. E ela sempre ali... "Tudo bem... Está tudo bem...".

No inferno íntimo, observando aquele corpo nu sobreposto à cama, estranhamente fusionado em suas entranhas, esfrega as mãos no rosto como a tentar retirar a própria pele. E, em um ímpeto de profunda angústia e desespero, veste o casaco e sai para beber alguma coisa...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

segunda-feira, 16 de maio de 2016

DOMINGO NO PARQUE



Hélène quer Jean.
Na verdade Hélène quer a cena. Jean há de encaixar-se na cena. Ele tem que se encaixar na cena.
Pouco importa Jean...
Sem a cena perfeita, somente esta infindável ausência...

Há tempos ela desejava a bicicleta. Não era dela, mas pouco importava. Imaginava-se preenchida com a bicicleta, um corpo único a passear pelas ruas e avenidas, solta, livre... Uma cena, única.

O que se passa com Jean?
Pouco importa... Desde que ele se encaixe na cena de Hélène. Cena única, falta de ausência.
Ideais, pensamentos íntimos, um vida diferente da dela... Bobagens... Jean tem que se encaixar na cena.
A cena de Hélène.
Vão assim, passear pelo parque, no domingo perfeito da cabeça de Hélène.
Pedalinho, algodão doce. Seus dedinhos a tocar de leve a superfície da calmaria do lago. Seus pés a tocarem a grama, observadora do beijo ardente do casal que está apaixonado. Para Hélène, o casal tem que estar apaixonado, pouco importa as bobagens de Jean.
Um domingo no parque. Uma perfeita cena de domingo no parque. O fim da ausência em Hélène.

Olha a faca! Olha a faca! Olha o sangue na mão...

Hélène quer o Jean de Hélène. Não há Jean de verdade, há o dela.
O preenchimento da ausência.
Não importa o sangue dos outros.
Bobagens de um Jean outro... Não o Jean dela.

sábado, 16 de abril de 2016

TRADUÇÃO



Há de se prestar atenção devida ao ler-se um texto traduzido.
Praticamente impossível à uma tradução, escapar das armadilhas, muitas vezes não propositais, muitas vezes perversas, da subjetividade do tradutor.
Ao tradutor, cabe uma aproximação abstinente ao texto original. Ao leitor, cabe a utilização do bom senso, de pesquisa e aprofundamento histórico e ideológico do autor original.

Marilene Carone (1924-1987), ao desafiar-se no projeto de tradução de alguns textos freudianos, manteve a postura não leviana de compreender ao máximo a profundidade do autor original, de sua localização histórica, de sua estilística de escrita, de sua personalidade. Um estudo trabalhoso, coroado com a aproximação da tradução nos apresentada ao "modo popular", escolhido por Freud. Um estilo de escrita que pretendia, mesmo quando a discussão era de ordem complexa, produzir um texto de fácil acesso à compreensão do leitor leigo.

A escuta, o trabalho do texto que sai da boca e entra na orelha, não é diferente.
A escuta, essa forma de tentativa de compreensão do discurso do outro, não está isenta de armadilhas.
Armadilhas muitas vezes inconscientes, armadilhas muitas vezes narcisicamente investida, armadilhas muitas vezes tendenciosas...
A escuta, para escapar da leviandade da imposição de opinião e levar a cabo a postura vertical de entendimento do que se fala ao ouvido, também deve se dar ao trabalho meticuloso de estudo, de localização histórica e ideológica, de profundo respeito abstinente da diferença. Caso contrário, a orelha que escuta corre sério risco de, por um lado, conduzir a boca que fala no caminho ideologicamente "correto" da concha auditiva de quem ouve, por outro, tristemente, se por a repetir, feito papagaio, uma ideia dogmatizada, comprada sem pesquisa, que acaba, indiscutivelmente, caindo nas teias que transformam o sujeito pensante em sujeito autômato, um zumbi sem possibilidade de construção de uma frase de si.

Discussões políticas e religiosas são um bom exemplo da contemporânea armadilha.
Na religião, a falta de conhecimento, produz a união incompatível de um "velho testamento" à um "novo testamento", a bel prazer de quem conduz o discurso que corrompe.
Na política, os gestos e as inflamações da fala, captura orelhas desatentas, distorcendo o que deveria ser profundamente compreendido.

Marilene Carone, astuta por ser estudiosa, nos brindou com traduções preciosas, corrigindo equívocos importantes de um autor importante, através de um aprofundamento crítico, e muitas vezes carregado de ironia humorada, sobre a tendenciosa e sedutora, portanto distorcida traição, que se apresentava aos olhos de um leitor, muitas vezes, desatento.

quarta-feira, 16 de março de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: NO FUNIL



"Às vezes me sinto tão impotente, me sinto tão sem saída... As coisas parecem que vão na direção contrária ao que eu gostaria... Sinto-me muito mal nesses momentos."

Há, sem sombra de dúvida, um ato de coragem ao enfrentar um processo de análise. Sem mágica, sem frases prontas, sem promessas miraculosas, a análise é um corte profundo e seco na carne do próprio desejo - uma espécie de deixar à mostra o conflito entre o que queremos e o que é possível.

Agora decidido, depois de anos de relutância, resolveu tomar para si, e somente para si, as rédeas da própria vida. Difícil exercício solitário e doloroso a percepção que o compartilhar com o outro não acontece, não vem... O outro resiste ao movimento em busca de uma verdade libertária.
Prefere-se ele assim, aprisionado ao absurdo de uma confusão sem começo, sem fim...

Difícil encarar que o investimento não passa de farsa idealizada, em um movimento de escoamento total de criatividade, paralisador portanto.

Ele resiste, busca caminhos alternativos, busca ocupar a cabeça com coisas que lhe dão prazer. Mas no discurso unilateral do outro é tudo sempre pequeno, pequeno, pequeno... Como se suas coisas fossem detalhes sem importância, deslocados de um cotidiano "normal". O que seria um cotidiano normal? Normal para quem?

"As coisas caminham para um afunilamento... Tenho medo deste afunilamento... Um funil que solicita decisões... Já tive mais medo disso."

Quando nos vemos autorizados a decidir, não significa o extirpar do medo.
Apenas nos apropriamos da autorização de decidir.
Muito mais fácil permanecer no apelo neurótico de um conforto infernal, onde a vida vai assim passando, passando, passando...
Enquanto o outro for responsável por nosso destino - engodo de nosso mundo mental -, resume-se tudo em minutos que passam, passam, passam, estéreis às nossas possibilidades de ser.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: INSOLIDÃO



"Eu gosto de ser sozinho... Isso não me incomoda..."
Olhar curioso sobre a possibilidade da existência de casais felizes... Os pais não são felizes!!!
Um delicado devaneio, nunca reconhecido, de estar com uma namorada, de casar, de ter filhos.
A verdade contida na solidão, a esconder o desejo de não estar só...
A estratégia, sempre muito atrapalhada e ineficaz, de aproximação em direção à mulher idealizada.

"Meu problema é a insônia."
Não consegue dormir, preocupado em não conseguir acordar na hora certa.
Toma remédio para dormir, toma remédio para se manter acordado.
Um certo pavor de entrar em contato com o onírico do sonho, um medo terrível de fantasiar e de sair de certa zona de conforto absolutamente racional e não afetiva... Controle absoluto!!!

"A culpa é de meus pais"
Sempre é!!! Gostamos de acreditar nisso!!! É reconfortante!!! Nos desresponsabiliza!!!
Existe ali uma disputa de quem é mais problemático... Ele quer ser o mais problemático... Precisa ser... Precisa manter-se no lugar confortável de ser problemático!!!
Se todos são esquisitos, que ele seja o mais esquisito de todos!!! Boa desculpa!!!

"Gosto de ser assim, esquisito..."
Ele não é esquisito, mas se disfarça bem em suas esquisitices...
Uma forte barreira, uma assepsia perfeita a qualquer contato afetivo.
Uma blindagem de homem de ferro, atômica, racional, matemática...
Uma ilusão, um engodo... Não demora muito, se vê novamente a ter de por em controle a avalanche de fantasias... Malditos hormônios... Viveríamos melhor sem eles!!!

Comprou camisas novas!!! Para quê?!? Apenas comprou... Quem sabe...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sábado, 16 de janeiro de 2016

COMBINADO





Sentiu-se assim envergonhada. Tinha revirado a casa inteira à procura da pequena medalha dourada, e agora, lá estava ela, depositada caprichosamente dentro da caixa onde guardava os rolinhos de algodão, utilizados para remover a maquiagem.
Agora era tarde... Seu irmão já havia retorna à Amsterdã!!!

O irmão, um jovem artista plástico, metido a contemporâneo escritor, nunca iria compreender o valor daquela peça dourada.
Faz dez dias que tinha ganho, de um tio muito popular na família, uma medalha pequena e dourada, para levar como recordação da estada aqui. Mas ele não daria valor. Nunca deu valor a essas coisas.

A medalha deveria ter pertencido a algum antepassado importante, um pequeno objeto redondo de puro ouro, brilhoso e envolvente, bem charmoso... Ela ficava a fantasiar sobre a história da medalha que, apesar de pequena, deveria conter valor inestimável...

O irmão pediu que ela a guardasse...
Ele era bem mais jovem, muito considerado pela família, apesar das bugigangas que chamava de obra de arte, e do livro que nunca terminava de escrever...
No fundo, sentia ciúme...
Solteira, era mais uma candidata a ser "senhora"... Nenhuma aventura para entreter a família que, provavelmente, a achava chata demais.

No dia do retorno à Amsterdã, não conseguiu encontrar a medalha... Por mais que revirasse tudo, teve que se desculpar e desculpar e desculpar com o irmão que, sorridente (o que a irritava), parecia não demonstrar preocupação... Ele não tinha ideia do valor do objeto.

Enfim... Agora perdia-se em seus pensamentos... Ficar com a medalha, afinal, não traria prejuízo ao irmão. Ele não tinha ideia do valor... Um pequeno objeto redondo que deveria ser valioso, valioso.
Ela não compreendia bem as inscrições na medalha, que deveria ser muito valiosa... O passado da família estava inscrito e representado ali.

Tempos atrás, estava o tio popular a passear pelas barraquinhas da Praça Benedito Calixto, quando, de repente, achou interessante algumas medalhinhas feitas em série, que representavam não sei o quê... Comprou algumas...