domingo, 15 de novembro de 2015

EQUÍVOCO



Há de se olhar para trás
feito curupira
para não tropeçar na sombra do que acreditamos ter sido
fugindo dos monstros de nossa própria criação

Há de se culpar
de não ter feito de outra maneira
desrespeitando os limites do que nos foi possível
mergulhando no trabalho
para não pensar
não pensar
não pensar

Há de ficar-se rodeando as decisões
para manter seguro o gozo de não progredir
não amadurecer
pois que o gozo é o fim do tesão da vida

Há de se duvidar da própria sanidade
quando o Outro acusa a loucura de todos nós
que somos diferentes
diferentes

Há de se ter medo
quando tudo aponta para nossa incapacidade
pois que a capacidade é uma construção
a vitória é uma construção
para além da imposição de nossa particular visão de mundo
Existem muitos mundos

Há de impor nosso restrito ponto de vista
retirando a possibilidade crítica da discussão das diferenças
fechando as portas de uma relação madura
para além da fotografia de Natal

Há de acreditar piamente que somos estranhos
para manter o status quo
de não sermos como todos
com alegrias, vergonhas e mazelas

Há de manter relações doentias
neuróticas
para não dar chance para outra coisa
nova

Há de confundir-se moral com ética
e ficar rodeando diálogos internos
partindo de lugar algum
chegando em nenhum lugar
Pois que a moral é um tumor que mata devagar
pior que o cigarro

Há de acreditarmos que devemos ficar sozinhos
para
acomodados
não precisarmos construir nada

Há de se manter uma questão
eternamente
para não reconhecermos o masoquismo que goza
goza
goza

Há de se lutar internamente
delirantemente
acusar-se e retalhar-se
para não enxergar o quão onipotente somos
Perfeição impossível
Narciso em nós

Há de se viciar em qualquer coisa
na ilusão de que realmente somos viciados
para que
pequeninos
não matarmos o Pai em nós
e nos tornarmos maduros

EQUÍVOCOS
EQUIVOCADOS
EQUINVOCADOS