quinta-feira, 30 de abril de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O PEQUENO MUNDO DA RAINHA RAIMUNDA



Lá vem Raimunda com seu salto alto: toc toc, toc toc, toc toc...
Raimunda é assim, mulher trabalhadora.
Raimunda trabalha... Trabalha Raimunda, trabalha.
Raimunda trabalha para manter seu pequeno mundo intacto: bom emprego, bom salário, um carrão maior que ela, uma casa grande, bem arrumada, na moda, limpinha e cheirosa... Raimunda.
Falta um homem que a deseje e a faça sentir-se desejada, mas Raimunda trabalha, trabalha, trabalha.
Falta a família desejada e acolhedora da fotografia da revista, mas Raimunda trabalha, trabalha, trabalha. Mantém tudo trancado dentro do peito, intacto... Assepsia do Desejo.
O desejo não pode revelar-se, dói, machuca.
Seu homem é pequeno, sua família robotizada.
Raimunda falta.

Na memória, uma menina descalça a andar no meio do lixo, era muito lixo.
A afetividade da mãe confundindo-se com a violência do pai. Violência desde sempre passou a ser afetividade.
Ela busca violência, afetividade perdida no tempo da memória.
Violência-afeto, Afeto-violência.
Mas tudo bem, tudo certo, não estudou e venceu na vida vencida.

Na sala, fica assim, arisca e violenta, com aquele olhar que busca o que não cabe, e que por isso falta.
Olhar que busca desejo e carinho, assim, misturado.
Fica contente e orgulhosa em sua leitura de meu olhar de aprovação sobre pequenas conquistas que rompem o pequeno mundo, afinal, abalável.

Lá vai Raimunda com seu salto alto: toc toc, toc toc, toc toc...
Raimunda falta.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).