domingo, 15 de fevereiro de 2015

CARNAVAL



Na antiguidade, o Carnaval era uma festa que, por dar início à um período de abstinência espiritual, promovia um gigantesco encontro com o prazer sem limites: comia-se, bebia-se e trepava-se loucamente.
Freud, em "Totem e Tabu", faz uma leitura interessante para o excesso que antecedia o tédio de enclausuramento da libido. Diz ele, retomando a mais antiga das religiões, o totemismo, que o Carnaval se faz na lembrança, comemoração e expurgo de culpa, frente à morte canibalística do Pai Primevo.
Atualmente, me questiono sobre a decadência da Lei imposta pelo Pai Primevo. É claro que as intercorrências do Supereu frente ao recalque e a moralização do sexual - a proibição do incesto e o assassinato do adversário -, ainda vigoram como base da civilização; mas e o respeito culposo pelo Pai Primevo?
Parece-me que o Pai Primevo foi substituído pelo capital, pelo dinheiro, em uma espécie de fusão (ou acordo) entre Deus e o Demônio. Afinal, em busca de riqueza, substituto significante da força fálica, tudo pode, vale tudo - quando alguém é pego em tramoias e trapaças em busca de riqueza exagerada, não sei se nos sentimos vingados ou com inveja...

No meio da multidão, meu olhar procura, recheado por corpos deformados, um ser humano esteticamente normal, quer seja pela hipocrisia no julgamento, quer seja pela sinceridade do olhar voyeur. Difícil achar um corpo normal, mas enfim, com um pouco de paciência, descubro uma criatura que vale a pena ser devorada com os olhos. Esperança, ainda há de se ter esperança...