quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

ABSOLVIÇÃO DO PESSIMISMO OU ABSOLUTO DOIS MIL E QUALQUER COISA



No último dia 28/dez (de dois mil e qualquer coisa), em Itapecerica da Serra, um desabamento de moradias irregulares causou a morte de algumas pessoas, outros seres humanos. Certo jornal televisivo mostrava cenas que chamaram a atenção. Em meio a retirada de móveis e outras coisas indefiníveis, contidas dentro de caixas, aparecia a imagem de dois caixões que continham restos de vida já inerte. Uma avó enterrava filha e neta, em duas caixas de tamanhos diferentes. Logo a seguir, a âncora do jornal, em mudança assustadora na expressão do rosto, anunciava as festividades de passagem de ano no Rio de Janeiro, preparando as Olimpíadas de 2016 - os hotéis estavam em alta, completamente lotados - "Coisa boa...", fechava o sorriso na televisão.

Cada vez mais, já que isso não é de agora, percebo o que poderíamos chamar de "representação absoluta", que enclausura o sujeito em um campo representacional que marca o Eu absoluto - Eu apenas -, excluindo, por consequência, o Eu compartilhado - Eu Nosso, um nosso mundo.
"Eu e minhas coisas", "Eu e meu carro", "Eu e meu filho", Eu e minha moral", "Eu e meus dogmas que me sustentam", "Eu e meu patrimônio", "Eu e meu Eu, somente".

Aquelas pessoas envolvidas no ocorrido em Itapecerica parecem não pertencerem ao Eu. Encontram-se distantes, protegendo-nos da desgraça sempre alheia. A dor e o sofrimento dos rostos na televisão, entrelaçando-se ao desespero de salvar todo e qualquer vestígio material de coisas, não fazem parte dos fogos de artifício a marcar um novo ano que se inicia, abrindo alas para o "Rio 2016".
Afinal, foi lá longe, em Itapecerica da Serra...
A pergunta vertical, que exige resposta vertical, não é feita: Por quê de moradias irregulares?
Moradias são casas de gente...

Aparentemente, seja em Paris ou em Mariana, "foi Deus que quis assim". Aparentemente, ou pior, no absoluto de nosso umbigo, não nos importamos. Já "brincava" Fabio Herrmann: "O criador deste mundo, provavelmente não foi analisado..."

Que sejam absolvidos os pessimistas, que passarão de dois mil e qualquer coisa, para dois mil e qualquer coisa.
Como disse o historiador Leandro Karnal: "Tenho inveja das pessoas felizes...".

domingo, 15 de novembro de 2015

EQUÍVOCO



Há de se olhar para trás
feito curupira
para não tropeçar na sombra do que acreditamos ter sido
fugindo dos monstros de nossa própria criação

Há de se culpar
de não ter feito de outra maneira
desrespeitando os limites do que nos foi possível
mergulhando no trabalho
para não pensar
não pensar
não pensar

Há de ficar-se rodeando as decisões
para manter seguro o gozo de não progredir
não amadurecer
pois que o gozo é o fim do tesão da vida

Há de se duvidar da própria sanidade
quando o Outro acusa a loucura de todos nós
que somos diferentes
diferentes

Há de se ter medo
quando tudo aponta para nossa incapacidade
pois que a capacidade é uma construção
a vitória é uma construção
para além da imposição de nossa particular visão de mundo
Existem muitos mundos

Há de impor nosso restrito ponto de vista
retirando a possibilidade crítica da discussão das diferenças
fechando as portas de uma relação madura
para além da fotografia de Natal

Há de acreditar piamente que somos estranhos
para manter o status quo
de não sermos como todos
com alegrias, vergonhas e mazelas

Há de manter relações doentias
neuróticas
para não dar chance para outra coisa
nova

Há de confundir-se moral com ética
e ficar rodeando diálogos internos
partindo de lugar algum
chegando em nenhum lugar
Pois que a moral é um tumor que mata devagar
pior que o cigarro

Há de acreditarmos que devemos ficar sozinhos
para
acomodados
não precisarmos construir nada

Há de se manter uma questão
eternamente
para não reconhecermos o masoquismo que goza
goza
goza

Há de se lutar internamente
delirantemente
acusar-se e retalhar-se
para não enxergar o quão onipotente somos
Perfeição impossível
Narciso em nós

Há de se viciar em qualquer coisa
na ilusão de que realmente somos viciados
para que
pequeninos
não matarmos o Pai em nós
e nos tornarmos maduros

EQUÍVOCOS
EQUIVOCADOS
EQUINVOCADOS

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: INDULTO



Há momentos em que sente-se assim, tranquilamente relaxado. Encontra-se simplesmente vivendo a vida.
Um convite para uma festa? Por que não?
O primeiro encontro foi mais ou menos, como todo primeiro encontro, quando se permite não idealizar as coisas!!! Um beijo mais ou menos que o levou à festa...
Festa colorida e tudo de bom... Foi bem recebido, sem saber se encontraria novamente aquelas pessoas... Mas a festa estava ótima!!!
Um rapaz bonito, um beijo mais ou menos... E daí? Não importa o que a cartomante leu para o amanhã... A festa estava muito boa!!!

Há momentos em que se vê livre do pai mítico, construtor de uma mítica história na qual será aluno para sempre... Diminutivo eterno...

Há momentos... Talvez seja isso que importa: existem esses momentos.
Momentos em que um certo tipo de pensamento outro começa eclodindo, construindo, possibilitando uma possibilidade outra!!!

Sem euforia, aproveita esses momentos de liberdade!!!


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: PRECIPITAÇÃO



Viu-se assim, de repente, em uma paralisia, em um mergulho em angústia instantânea.

Atualmente, no mundo contemporâneo, tudo é instantâneo, até os estados de angústia são instantâneos.

Viu-se assim, em insuportável desconforto, frente à possibilidade da ausência.
Ausência insuportável que acabaria com a ilusão daquilo que foi, daquilo que é, daquilo que seria.
Um desconforto na possibilidade da ausência daquele olhar, daquele toque, daquela conversa, das inúmeras fantasias transformadas em palavras escritas no pequeno diário.
Sem dar-se conta da importância de manter um pequeno diário, a paralisia fez-se olhar vazio, mensagens vazias, fotos vazias, lembranças vazias.
No insuportável da possibilidade da ausência, num repente de angústia, tocou, precipitadamente, o dedo no botão, deletando toda a informação da experiência vivida, apagando os ecos e os restos do que poderia ter sido...
No momento seguinte, arrependeu-se da precipitação - uma fuga sem luta...

A ausência, ou a suportabilidade da ausência, é fundante do estado humano, da maturidade, da capacidade de estar sozinho, consigo mesmo - uma batalha para sempre.

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 30 de agosto de 2015

SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA





VITORIANA ERA

ELE FAZ A BARBA PENSANDO NELA
MATERNIDADE
BARRIGA DE SEUS FILHOS, HOMENS SE POSSÍVEL
DEIXA O BANHEIRO BAGUNÇADO
ELA ODEIA
DIVERSÃO E FARRA SÃO COM AS MULHERES DO BORDEL
MULHERES NÃO MATERNIDADE

ELA PENSA NA DESCULPA DE AGORA
ENXAQUECA? CANSAÇO?
DESVIA O OLHAR
SEXO É O MAL
SEXO FAZ MAL
TIRA A JUVENTUDE, TIRA A ENERGIA
É O QUE ENSINAVA A AVÓ
APESAR DO IMPULSO CRESCENTE
É FEIO O ORGASMO
ORGASMO É COISA DE MULHER INDECENTE
É O QUE ENSINAVA A AVÓ

ELE CHEGA COM UM SORRISO
NO MEIO DE TANTOS PANOS
FAZEM COITO REPRODUTIVO
E, APÓS RISADAS FORÇADAS,
ADORMECEM
UM E COSTAS PARA O OUTRO

E ELA
A SONHAR
SENDO UMA MULHER NÃO MATERNIDADE
PARA, AO ACORDAR,
CONFESSAR-SE COM O PADRE
REZANDO O TERÇO
E ARRUMANDO OS CHINELOS DELE

ELA O ODEIA


quarta-feira, 15 de julho de 2015

A BOCA E A ORELHA: TRADUTTORE, TRADITORE



A Palavra pode ser considerada como a unidade da linguagem que tem por função representar partes e ideias associadas do pensamento.
A palavra falada que sai da boca, esta deliciosa traição... A palavra falada que entra na orelha, traiçoeira, marota...

Em uma conversa, encoberta pela rotina do cotidiano - e tem de ser assim para a proteção da saúde mental -, acredita-se no entendimento dos sujeitos. Mero engodo: em uma conversa, corriqueira que seja, nos desencontramos completamente, e nos esforçamos por manter a ilusão do encontro na conversa. Ali, em torno da mesa, com os amigos ou com a família, a Palavra nos come...

Não temos controle sobre as palavras que saem da boca, não temos discernimento sobre as palavras que entram pela orelha. Obviamente que existe todo o aparato neurológico, como explica o especialista de plantão da televisão; obviamente não se explica o todo...

Às vezes, a palavra tem me cansado, me cansado, me cansado... Gostaria Eu de ficar assim, a ouvir passarinhos...

Acreditamos estar passando a mensagem correta, mas somos surpreendidos pela invasão do estranho da palavra, do duplo sentido, do ambíguo em nós.
Acreditamos, de maneira bastante sem-vergonha, estar ouvindo o correto, quando direcionamos nosso ouvir para o que desejamos ouvir.

A palavra falada vem acompanhada de tons, cores, gestos, silêncios, caras e bocas a nos trair constantemente.
A palavra escrita, como a destas linhas, escapa do traiçoeiro... A palavra escrita pode ser corrigida.

No fundo, o sexual está por trás de tudo? Para o espanto de alguns, infelizmente sim... A Palavra é sexual!!!

A Palavra é sexual, magnífica, lúdica, aterrorizante, diabólica, hipocritamente disfarçada... A Palavra sensual é absurdamente maravilhosa.

Traduttore, traditore.

A Imagem, sem traições, não é traiçoeira.

terça-feira, 30 de junho de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: OPORTUNA IDADE



Chegou assim, em um estado completamente caótico, desorganizada. Há tempos que vem sendo judiada...
Como pano de fundo, uma grotesca imagem de mãe que enxerga em excesso... E a acusa, a castra, a desanima.
Há tempos que vem se encrustando em "negócios da China": relações perdidas, amores perdidos, terapias perdidas, formações perdidas, dinheiro perdido... E ela pedindo um pouco de organização.
Aos poucos, assim devagarinho, foi se organizando, se arrumando, se reconhecendo, deixando para trás a sombra da mãe monstruosa, acendendo a luz de sua casa, seu espaço, seu continente.
E os "negócios da China", que antes eram pejorativos, hoje assumiram outro lugar: fazer negócio com a China, hoje é prazeroso.
O prazer enfim chega na idade oportuna. Em seu corpo já maduro, vai se descobrindo mulher, em todos os sentidos. Chega enfim a hora da colheita, da não insegurança, do olhar para frente.

Toda idade é idade oportuna: oportunidade...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sexta-feira, 15 de maio de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: EM BUSCA DE UM AMOR



Inevitavelmente o humano busca completude.
Pessoas buscam representações possíveis que as completem.
Pessoas há que buscam outras pessoas - uma relação de amor.
Uma pessoa que busca outra pessoa.
Tem que ter tempero, o início de toda busca. Aquela coisa de pele que arrepia a gente.
Tem que ter carinho. Um cafuné, pés juntos sob a coberta numa noite fria, risadas gostosas sobre a intimidade.
Tem que ter respeito. Nada melhor do que o conforto provocado pelo respeito da individualidade - estar junto e não ter posse.
Tem que ter cumplicidade. A confiança de se poder ter uma boa conversa e não uma "DR".
Busca difícil esta, a de buscar outra pessoa. Difícil mas possível, desde que se tenha paciência para consigo mesmo.
Será realmente que importa aqui a identidade de gênero?!?


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O PEQUENO MUNDO DA RAINHA RAIMUNDA



Lá vem Raimunda com seu salto alto: toc toc, toc toc, toc toc...
Raimunda é assim, mulher trabalhadora.
Raimunda trabalha... Trabalha Raimunda, trabalha.
Raimunda trabalha para manter seu pequeno mundo intacto: bom emprego, bom salário, um carrão maior que ela, uma casa grande, bem arrumada, na moda, limpinha e cheirosa... Raimunda.
Falta um homem que a deseje e a faça sentir-se desejada, mas Raimunda trabalha, trabalha, trabalha.
Falta a família desejada e acolhedora da fotografia da revista, mas Raimunda trabalha, trabalha, trabalha. Mantém tudo trancado dentro do peito, intacto... Assepsia do Desejo.
O desejo não pode revelar-se, dói, machuca.
Seu homem é pequeno, sua família robotizada.
Raimunda falta.

Na memória, uma menina descalça a andar no meio do lixo, era muito lixo.
A afetividade da mãe confundindo-se com a violência do pai. Violência desde sempre passou a ser afetividade.
Ela busca violência, afetividade perdida no tempo da memória.
Violência-afeto, Afeto-violência.
Mas tudo bem, tudo certo, não estudou e venceu na vida vencida.

Na sala, fica assim, arisca e violenta, com aquele olhar que busca o que não cabe, e que por isso falta.
Olhar que busca desejo e carinho, assim, misturado.
Fica contente e orgulhosa em sua leitura de meu olhar de aprovação sobre pequenas conquistas que rompem o pequeno mundo, afinal, abalável.

Lá vai Raimunda com seu salto alto: toc toc, toc toc, toc toc...
Raimunda falta.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 15 de março de 2015

MAMMA ROMA





MAMMA ROMA VAI SER PUTA PARA SEMPRE
ENCONTRA-SE CONDENADA À ESTE DESTINO

MAMMA ROMA QUER SEU FILHO, ETTORE, IDEALIZADO
FUTURO HOMEM DE BEM
ETTORE MAMMA ROMA QUE NÃO SE FEZ

ETTORE QUER BRUNA
JOVEM SAPECA, SEXUALIZADA
BRUNA MAMMA ROMA DE ONTEM

BRUNA QUER TUDO
POR ISSO, NÃO QUER NADA

MAMMA ROMA ESQUECE DE IMPORTANTE DETALHE
PERGUNTAR AO FILHO
O QUE QUER ETTORE?

DETALHE
CONDENAÇÃO
ETTORE VAI SER FILHO DA PUTA PARA SEMPRE


Minha homenagem à "MAMMA ROMA" de Pier Paolo Pasolini, de 1962. Minha homenagem à Anna Magnani, pelo brilhantismo e dignidade, ao dar vida à Eterna Puta.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

CARNAVAL



Na antiguidade, o Carnaval era uma festa que, por dar início à um período de abstinência espiritual, promovia um gigantesco encontro com o prazer sem limites: comia-se, bebia-se e trepava-se loucamente.
Freud, em "Totem e Tabu", faz uma leitura interessante para o excesso que antecedia o tédio de enclausuramento da libido. Diz ele, retomando a mais antiga das religiões, o totemismo, que o Carnaval se faz na lembrança, comemoração e expurgo de culpa, frente à morte canibalística do Pai Primevo.
Atualmente, me questiono sobre a decadência da Lei imposta pelo Pai Primevo. É claro que as intercorrências do Supereu frente ao recalque e a moralização do sexual - a proibição do incesto e o assassinato do adversário -, ainda vigoram como base da civilização; mas e o respeito culposo pelo Pai Primevo?
Parece-me que o Pai Primevo foi substituído pelo capital, pelo dinheiro, em uma espécie de fusão (ou acordo) entre Deus e o Demônio. Afinal, em busca de riqueza, substituto significante da força fálica, tudo pode, vale tudo - quando alguém é pego em tramoias e trapaças em busca de riqueza exagerada, não sei se nos sentimos vingados ou com inveja...

No meio da multidão, meu olhar procura, recheado por corpos deformados, um ser humano esteticamente normal, quer seja pela hipocrisia no julgamento, quer seja pela sinceridade do olhar voyeur. Difícil achar um corpo normal, mas enfim, com um pouco de paciência, descubro uma criatura que vale a pena ser devorada com os olhos. Esperança, ainda há de se ter esperança...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: UM HOMEM PRESTATIVO



"O Passado me condena, eternamente. Eu, apenas Eu, sou culpado. Todos os outros, todo o resto, são vítimas das circunstâncias criadas por mim..."

Um homem honestamente prestativo... Talvez excessivamente prestativo. O excesso contém a honestidade de revelar seu contrário, no caso, um egoísmo narcísico monumental.
Ele acolhe, ajuda, dá a mão, faz caridade... Movimentos que tentam provar à todo o custo - muito custo -, que no fundo, ele presta.
Ele precisa prestar, para aliviar as Fúrias, a culpa acusatória de ter arruinado a vida de um punhado de gente. Fantasia terrorífica que lhe tira o sono constantemente - tudo muito custoso.

Um homem elegante, charmoso, extremamente ativo. Sempre a correr de um lado para o outro, sempre sem tempo, esquecido para esquecer a culpa. Com mãe problemática e pai morno em excesso, a atividade demonstra que, afinal, ele é diferente... Ele presta.

Presta-Atividade, eis a lógica que cria a logística de sua vida... Tudo muito custoso.

De certo modo, ele precisa - uma necessidade que sustenta sua identidade - acreditar... Acreditar que, no passado, arruinou a vida de muita gente. Precisa apressar-se a consertar esse não sei o quê...

"Eu preciso ser culpado, entende... Preciso que você autorize minha maldição, me julgue e me condene por aquilo que acredito..."

Um problema sério este, pois não estou ali para isso...


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).