sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O PEQUENO SAMURAI



Entra na sala assim, todo pomposo, ajudado por adereços de grife de roupas juvenis. Com postura de adulto, senta-se e repete o mesmo ritual: amarrotando o xale que cobre a cadeira, atira-o com certa violência sobe o divã.

O xale é sua katana, sua arma fálica poderosa, com a qual me descreve as vitórias obtidas nos games da moda. Katana que o habilita, cada vez mais, a sustentar um lugar na casa - agora tem um quarto, não precisa dividir com o irmão, que o vê pelas costas. Katana que o arma para impor-se contra as vontades da mãe.

O xale representa os outros meninos que o humilham em um jogo de bullying que "nunca vai ter fim". A mesma katana oriental que o defende, marca os pequenos traços de orientalidade pelos quais é violentado diariamente por outros pequenos seres humanos civilizados.
Ele, que sofre a violência, é tido pela instituição escolar de grife como sendo o "problemático".
O uso da violência sempre representa a fragilidade, a estupidez e a defesa perversa daquele que a exerce. A lógica do preconceito aponta para a falha de caráter da civilização - uma civilização falha.
Vejo com frequência, naquele corpo juvenil que já apresenta, sem o saber, características de um corpo forte e de masculinidade bela, as mãos que falam um gesto grave: "Tudo é questão de dinheiro, meu amigo...". Segundo meu pequeno paciente, todos chegam em carros de grife, com coisas de grife, com mães de grife.
Civilização falha.

O xale representa nosso pequeno samurai, deitado disforme sobre o divã, a buscar angustiado uma forma outra que aponte para uma violência que vai cessar, vai cessar...
  

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).