domingo, 14 de setembro de 2014

ENGODO



"Em suas implicações, a deformação de um texto assemelha-se a um assassinato: a dificuldade não está em perpetrar o ato, mas em livrar-se de seus traços."
(SIGMUND FREUD, 1939)


Em seu "Der Mann Moses Und Die Monotheistische Religion: Drei Abhandlungen", publicado em 1939, Freud tece críticas sobre a reconstrução, às vezes no intuito de falsificar "objetivos secretos", de uma história primitiva, utilizando-se dos primórdios do povo de Israel. Com a interpolação ficcional de "se Moisés fosse egípcio", Freud faz saltar da história contada, perdida no tempo, um duplo Moisés, condensado no herói hebreu, e um duplo Javé, condensado no Deus da aliança monoteísta. Tudo no texto histórico passa a ter duplos: personagens, deuses, lugares sagrados, e intenções. O próprio texto freudiano, que começa a ser redigido em 1934, sofre da armadilha, às vezes em prol de melhoras, às vezes em prol de adequações.

O mundo mental humano funciona de igual maneira. De sua história primitiva o homem nada sabe; os primórdios de sua história pessoal são uma reconstrução, às vezes criação de memórias, que preenche vazios, desfaz lacunas, reinventa um bebê que, em verdade, é projeção do olhar adulto. A memória nasce na passagem da criatura biológica à criatura humana. "Objetivos secretos" são expulsos do pensamento tido "normal".

Nossas instituições funcionam de igual maneira. Do texto original, que perde-se ao longo do tempo, pouco sobra de originalidade. As instituições humanas também falsificam sua história, às vezes em prol de melhoras, às vezes em prol de adequações que escondem "objetivos secretos" - propositalmente.

A citação freudiana de 1939, bem poderia ter sido de Dostoiévski, na boca de sua criação, o jovem estudante russo Raskólnikov, ao final de "Crime e Castigo". Destino humano?