quinta-feira, 28 de agosto de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ROOTS



"Cara, tô um pouco mal... Tive um sonho mó estranho!!!"
"Sonhei que meu pai estava sonhando comigo, entende!!!"
"No sonho de meu pai, que era meu sonho, eu tava de cabelo cortado, de gravata e coisa e tal... Me sentia contente, feliz!!! Caminhava em direção ao escritório... Eu trabalhava em um escritório!!! Dava pra ler a placa na entrada do prédio bacana: BURROCRACIA."
"Aí vem uma parte mó estranha... muito estranha... Todo mundo lá dentro tinha cabelo dread, todo mundo lá dentro tava fumando baseado... Todo mundo lá dentro olhava pra mim como se eu fosse uma coisa esquisita de cabelo cortadinho e gravata!!!"
"Cara, acordei ofegante, me sentindo mal!!!"

O Movimento Rastafári (Cabeça da Paz) é um movimento religioso espiritualista, que tem como representante divino JAH - forma contraída de JAVE, encontrada no salmo 68:4 da Bíblia do Rei Tiago. Nascido na Jamaica, entre a classe trabalhadora e camponesa, o Rastafári prega a Paz e a Liberdade entre os Homens. De uma forma bastante comum encontrada em várias religiosidades espiritualistas, o Movimento Rastafári se utiliza da "maconha" como erva que proporciona a ponte espiritual de sua ideologia.
Estes são dados bastante interessantes - e distantes - para a atual discussão da legalização ou não da considerada "droga" maconha.
Particularmente não uso maconha, e nem faço apologia a ela - como certos discursos de moda, que mal conhecem a origem do que discursam. Apenas me peguei a refletir sobre o que acham os Rastafáris - movimento cultural respeitável - sobre o termo "droga" aplicado à sua erva sagrada.
Se é certo, e o é, que a maconha foi se distanciando do espiritualismo, e caindo em um vazio "pop" sem sentido, repleto de discursos exagerados e preconceituosos; também é certo que encontra-se inserida em um movimento religioso e de lastro de uma cultura.

Ao terminar a sessão, fiquei pensando em meu jovem paciente, honestamente Rastafári Sul-americano, distante da Jamaica, confundido e perplexo entre uma discussão interna moralizada de "certos" e "errados", tentando, de certa maneira, e de sua maneira, preservar a direção de sua própria identidade, ser o que deseja ser, assumindo com isso a dor e o prazer implicados em juros de eternos preconceitos superficiais, que, sem que ele mesmo se dê conta, o capturam e o corroem por dentro. Isso dói.

"Cara, eu tô tentando me organizar, tentando encontrar meu ritmo!!!"


 *DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).