segunda-feira, 14 de julho de 2014

7 x 1



O Futebol é um dos esportes mais populares do mundo - um jogo lúdico de criatividade. Precisa-se de uma bola - que pode ser desde "bola de meia" até as de preço salgado das grifes esportivas -, e de qualquer coisa que sirva de trave - pedra, "pedaço de pau", trave mesmo.
Brasileiro do Brás paulistano, Charles Miller trouxe a bola na bagagem, no regresso ao Brasil, depois de longa temporada na Inglaterra. A bola se espalhou pelo país tupiniquim. Adentrou em todas as classes sociais do país, que se tornou o País da Bola.

O Futebol é um dos esportes mais populares do mundo. Criou-se em torno de sua popularidade, uma instituição para organizar o Futebol. A FIFA não é popular - transformou o Futebol em futebol, com a criação do "cartola". O "cartola", diferente do garoto da periferia, não entende de Futebol. O "cartola", diferente do garoto de periferia, gerencia futebol - e a bola de Charles Miller virou um dos maiores objetos do mundo capitalista, que não é o único mundo que existe.

A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil - o País da Bola -, foi uma homenagem ao Futebol. Mesmo os mau-humorados de plantão tiveram de fazer força contra a contagiante explosão de Futebol do garoto da periferia.
O Brasil, País da Bola, não é o único Brasil. Nele também se encontra o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, a Terra de Ninguém, o País da Desigualdade, o País da Impunidade... E por aí vai...

O Futebol é um patrimônio do Brasil, o País da Bola. Em consonância com o Futebol, a Cerveja e a Bunda (que me desculpem as feministas, isso é um elogio), também são patrimônios do Brasil. Futebol, Cerveja e Bunda, inseparáveis nas conversas de boteco.
A Bunda está, ultimamente, sofrendo de "mania", cada vez maior, deformando-se, deixando de ser "orgulho nacional". A Bunda está um horror.
A Cerveja não desce mais redonda. Provavelmente não é culpa da Cerveja, mas sim da "guéla" do brasileiro, que já não é mais a mesma.
O Futebol? Bem... Por ironia do destino, Müller não é Miller...

"Ruptura de Campo" é o nome que se dá, em Psicanálise, à ruptura de sentidos que aprisionam o Homem Psicanalítico à eterna repetição de um único destino, doente portanto. Através da "Arte da Interpretação" - Arte como a do Futebol -, a análise coloca o Sujeito em "Vórtice" e "Expectativa de Trânsito", ou seja, a criatura humana, sujeita à Psicanálise, entra em colapso com o próprio ato repetitivo, buscando, de acordo com a natureza da Psique, alternativas que vão se somando em direção ao Infinito - representação contrária ao que se conhece por Destino.

O Futebol?!? Ficou em 08 de julho de 2014...

11 min. (Thomas MÜLLER)
Passou pela minha cabeça a ideia de que "Deus é brasileiro... Deus vai ajudar..." - defesa infantil frente ao que já se anunciava desde o primeiro jogo da "seleção canarinho", uma tragédia desorganizada. Diferentemente dos pseudo-analistas esportivos, oportunistas da situação, distantes da "bola de meia" do garoto da periferia, Gustavo Hofman da ESPN Brasil já anunciava, há tempos, a interpretação: "A Alemanha trabalhou".

23 min. (Miroslav KLOSE)
O maior artilheiro dos mundiais fez, no País da Bola, as crianças brasileiras chorarem. Crianças grandes e pequenas foram se dando conta da onipotência de crer que "Deus é apenas brasileiro". As lágrimas apontavam para a desorganização mental e a falta de recursos defensivos contra a frustração que faz amadurecer - Angústia e Desespero.

24 min. (Toni KROOS)
Um pai afaga, carinhosamente, o filho desconsolado. Diz ao rapazinho: "Calma filho... Eu sei que dói... Mas isso é resultado do trabalho deles e da falta de trabalho nosso". O menino, diferentemente dos pseudo-analistas esportivos, propõem-se a refletir as palavras postas pelo pai - quem sabe um futuro plantado de outro jeito...

26 min. (Toni KROOS)
O País do Futebol grita, aos berros: "Ei, Dilma, vai tomar no c... Ei, FIFA, vai tomar no c..." - vórtice pronunciado.

29 min. (Sami KHEDIRA)
Um amigo me confidenciou: "Pô, Marcão... Fui 'tirar água do joelho' e, quando voltei, o placar marcava 5 pra Alemanha!!! Será que surtei?!?" - assistindo ao jogo na famigerada e urinada Vila Madalena.

69 min. (Andre SCHÜRRLE)
Nitidamente a Alemanha, que trabalhou sério em Santa Cruz Cabrália, ficou com pena - humilhação - da "seleção canarinho", que eu, amante do Futebol, sinceramente, não sabia mais como denominar... Perdi a referência da História do País da Bola. Eu? Nós? Quem?!?

79 min. (Andre SCHÜRRLE)
Sensacional chiste de Juca Kfouri, no "Linha de Passe" da ESPN Brasil - aliás, gostaria de parabenizar o canal pelo espetacular e sério Trabalho realizado -, tão interpretativo, que faço questão em reproduzir: "Nem Fred e nem Freud".
O rapazinho, o mesmo dos 24 min., ficou pensativo... Ao observar o time alemão, o eco das palavras do pai permanecia em sua cabeça: trabalho, trabalho, trabalho...

90 min. (OSCAR)
Fico me perguntando - coisa esquisita de analista -, será que o nome de família na camisa do Outro significa alguma coisa? Lembro-me da descrição dos épicos gregos, onde o guerreiro citava, minuciosamente, a origem do nome que representava na batalha, ouvido com respeito pelo adversário.
"Sou brasileiro (?)... Com muito orgulho (?)... Com muito amor (?)" - desculpem-me, mas uma falácia de hino no País da Bola que não sabe, nem se empolga com o próprio Hino.
Interessante o fato da promessa garoto-propaganda Neymar ter sofrido uma lesão nas costas... Costas que carregavam um país...

Hoje em São Paulo, metrópole do País da Bola, é segunda-feira... O burburinho acordou como sempre, apressado no paulistano que segue à trabalhar, em sua maioria, no aperto da condução pública. Estou em minha semana de férias - descanso após um semestre de trabalho -, provavelmente como a seleção alemã.
A impressão é de que tudo passou... A vida segue... As contas aparecem... As filas continuam. Talvez Dona Lúcia, que espero que exista, esteja a refletir sobre aquela "carta" aos scholars da CBF - outra instituição distante da "bola de meia" do garoto da periferia.
Expectativa de Trânsito... E que trânsito logo na segundona!!!

Tudo passa? Tudo passou?
Para o Futebol, no País da Bola, espero que não!!! Só me resta torcer, como amante de futebol que torce, para que o dia 08 de julho de 2014, a ruptura de campo, produza outras representações possíveis frente ao destino repetitivo da "incapacidade", "impunidade", "menos-valia", "pseudo-celebridades"... 
Não. Não pode passar...