sábado, 28 de junho de 2014

NOS JARDINS DO RATHAUS



"Assim aconteceu que adiei a ocasião de visitá-lo, até que se tornou tarde demais, e agora o que posso fazer é saudar seu busto nos jardins em frente ao nosso Rathaus."
(Sigmund Freud, 1932)

No inverno de 1899, após quase cinco anos de trabalho exaustivo, Freud terminava "A Interpretação dos Sonhos", obra que marca o início da Psicanálise, com a apresentação do que se conhece como a primeira tópica do aparelho mental. Fracasso editorial, a obra foi recebida com asco e violência pela comunidade científica - lastro dos primórdios de um método de investigação e cura que almejava ser a ciência geral da psique.
Anos depois, Freud encontra o livro "Phantasien eines Realisten", uma coleção de histórias de autoria do grande scholar austríaco Josef Popper-Lynkeus, publicado em 1899, que continha "Sonhar Acordado" - história que continha idéias muito próximas às apresentadas por Freud.
Freud, um trabalhador incansável mas desgastado intimamente por anos de críticas, encontrando-se descrente da possibilidade de uma civilização pacífica, vencida pelos impulsos destrutivos do homem e subjugada por desejos secretos e inconfessáveis, encontrou-se dominado ao encontrar tamanha sabedoria unida à sentimentos de profunda esperança em um Popper honesto, crítico, ao mesmo tempo que um homem afetuoso e humanitário, refletindo sobre os direitos do indivíduo: "Um especial sentimento de simpatia atraía-me a ele".
Freud e Popper nunca se encontraram pessoalmente, muito em circunstância do afastamento de amigos em comum frente à marginalidade em que o pai da Psicanálise fora posto.

Fiquemos a imaginar a cena de um velho Freud, a caminhar pelos jardins do Rathaus, parado em frente ao busto de Popper, curiosamente a observar o rosto daquele outro homem, intrigado com possibilidades confusas e paradoxais, intrínsecas às diferentes experiências de vida e compreensão de mundo.