quarta-feira, 14 de maio de 2014

PSICANÁLISE, CIÊNCIA & FICÇÃO



De tempos em tempos, é anunciada a morte da Psicanálise. Aos Nostradamus de plantão, creio eu que a profecia está longe de se cumprir: a Psicanálise nunca esteve tão viva - e nunca foi tão necessária.
Em um mundo caótico, onde impera o Absurdo, a Psicanálise continua sendo, através de seu método exploratório ao mesmo tempo curativo, a mais importante candidata a ocupar o lugar de Ciência Geral da Psique - malgrado o "olho gordo" dos outros.
Estrategicamente posicionada entre a Psicologia, a Medicina, a Filosofia e a Literatura, a Psicanálise encara de frente perguntas e inquietações sem absolutamente cair na falácia da obrigação de "respostas prontas" ou no ardil de respondê-las com a própria pergunta "maquiada".
A Psicanálise simplesmente interpreta, e interpretando, rompe com pressupostos, relativizando a realidade, transmutada agora como verdade possível, frente à tantas outras verdades possíveis.
Antes de mais nada, é sempre bom lembrar, Freud foi um escritor - e dos bons. Os historiais clínicos, as peripécias teóricas, os mergulhos verticais em áreas como a Sociologia, a Antropologia, as Artes (destacadamente a Literatura), são verdadeiras obras de ficção. Ficção não é sinônimo de mentira, mas de ato criador, criativo, portanto pautado no imaginário humano que, por motivos óbvios, é o melhor instrumento para descrever o mundo humano. Freud, de tão bom escritor que era, criou um personagem fantástico, sobrevivente à todas as modas terapêuticas ao mesmo tempo que fundador de todas elas: o psicanalista.
O psicanalista, este ser da fantasia, cientista da desilusão - no sentido de fazer cair o pano que encobre os sentidos possíveis de ser humano. Posto que não é ninguém, é todos os possíveis ao mesmo tempo.
Como disse, a Psicanálise nunca foi tão necessária...
Acostumado que foi, o Homem se enquadrou na Lei de "tem de se enquadrar", perdendo completamente a subjetividade como possibilidade de saúde mental, transformando-se em autômato de atos sem sentido. O mundo humano, hoje, não possui mais sentido algum.
Como disse, a Psicanálise nunca foi tão necessária...
A Psicanálise resgata a história singular, a ficção particular do cotidiano, às vezes secreta, do sujeito. Cada ato do analista - a interpretação, pequenos movimentos desencontrados com o assunto considerado importante -, é e contém o enredo que é a vida do sujeito. Uma análise é história viva, portanto "não prova", "se prova".