terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O HOMEM QUE RESOLVEU SER SINCERO



Lembro-me bem... - péssima maneira de se começar um texto, posto que a memória é traiçoeira, e a memória do analista é pura ficção verdadeira.

Começou com um pequeno sentimento de tédio, que foi crescendo aos poucos e tomando conta de tudo. Graças a um peculiar humor, não se transformou em bruscos atos violentos nem em profundos mergulhos depressivos. Mas ficou um tédio profundo... Incômodo.
Seus afazeres se tornaram cada vez mais virtuais e automáticos. A conversa das pessoas eram burburinhos que, às vezes, tomavam um volume insuportável. As pessoas se tornaram um barulho insuportável.
O automático tomava, devagarinho, o sentido de ser ele.
Aliás, uma vez, ao perceber a loucura da metrópole em que vivia, resolveu não ter mais automóvel - quase foi internado pelos familiares e execrado pelos amigos - um verdadeiro absurdo não ter automóvel.

De sopetão, resolveu acabar com tudo. Iria ser outro ele, um ele sincero. Apesar da contramão de certa saudável hipocrisia social - e não há ironia aqui -, resolveu tomar como forma de cura ser ele sincero.
Uma forma mesclada de sutil sinceridade, somada a seu peculiar humor - já que o intento não era o de ferir os sentimentos alheios. Um esforço enorme, pois que para o velho ele tudo era alheio. Um ventre "malterno", um seio "malterno"...

A primeira experiência foi dura de ser vencida. Assumindo ele sincero o caminho do amor libertário, foi crucificado pelos mais próximos. "Como assim, você não vai namorar?!? Como assim, você quer ir na festa sozinho, sem ela?!? Aproveitador!!!"
Para ele outro, era apenas o exercício de sinceridade.

Talvez seja a sinceridade que dê conta da falta dele - não sei bem qual deles - na sessão que me fez devanear esta ficção psicanalítica.
Ser sincero é um ato de coragem... Mas tem um preço.

Será possível sermos realmente sinceros?


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)