domingo, 28 de dezembro de 2014

SEGREDOS



Todas as pessoas têm seus segredos - é algo inerente à condição humana.
O segredo, criatura que povoa nosso mundo de fantasias, mundo muitas vezes considerado sombrio, é um ser costumeiramente fugidio.

O Futebol tem segredos...

Normalmente o segredo, vivente no mundo periférico de nossas fantasias, surge a nos assombrar, invadindo nossas memórias, saindo de nossas gavetas, assombrando-nos à noite quando, em sono tranquilo, acordamos de sobressalto após um pesadelo, ou ficamos pensativos sobre um sonho.

A Política tem segredos...

O segredo é composto de elementos de agressividade e erotismo que, como bons cidadãos que somos, mergulhados em nossas mais sinceras hipocrisias civilizatórias, gasta boa quantidade de energia de nosso aparato mental para manter-se aprisionado nos confins daquilo que não podemos suportar de nós mesmos.

A Religião tem segredos...

Há pessoas que conseguem, no empenho de conviver com os segredos, administrá-los, como uma espécie de domesticação possível - um contrato de compromisso. Outras há, arredias a si mesmas, que não poupam esforços em jogar para longe seus segredos, o que normalmente atinge a cabeça do outro, em ataques e julgamentos morais, extremamente agressivos, mas sem fundamento algum.

Ter segredos é condição humana. Zumbis não têm segredos, zumbis não têm memórias, pois que nossas memórias são feitas de histórias.

Cada um faz como pode. Cada um faz como quer.

Que atire a primeira pedra quem não tem segredos.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O PEQUENO SAMURAI



Entra na sala assim, todo pomposo, ajudado por adereços de grife de roupas juvenis. Com postura de adulto, senta-se e repete o mesmo ritual: amarrotando o xale que cobre a cadeira, atira-o com certa violência sobe o divã.

O xale é sua katana, sua arma fálica poderosa, com a qual me descreve as vitórias obtidas nos games da moda. Katana que o habilita, cada vez mais, a sustentar um lugar na casa - agora tem um quarto, não precisa dividir com o irmão, que o vê pelas costas. Katana que o arma para impor-se contra as vontades da mãe.

O xale representa os outros meninos que o humilham em um jogo de bullying que "nunca vai ter fim". A mesma katana oriental que o defende, marca os pequenos traços de orientalidade pelos quais é violentado diariamente por outros pequenos seres humanos civilizados.
Ele, que sofre a violência, é tido pela instituição escolar de grife como sendo o "problemático".
O uso da violência sempre representa a fragilidade, a estupidez e a defesa perversa daquele que a exerce. A lógica do preconceito aponta para a falha de caráter da civilização - uma civilização falha.
Vejo com frequência, naquele corpo juvenil que já apresenta, sem o saber, características de um corpo forte e de masculinidade bela, as mãos que falam um gesto grave: "Tudo é questão de dinheiro, meu amigo...". Segundo meu pequeno paciente, todos chegam em carros de grife, com coisas de grife, com mães de grife.
Civilização falha.

O xale representa nosso pequeno samurai, deitado disforme sobre o divã, a buscar angustiado uma forma outra que aponte para uma violência que vai cessar, vai cessar...
  

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 28 de outubro de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: EROS



Feliz da vida, fez as malas e foi viajar.
Viajar, passear, divertir-se, arriscar-se, são dons que ela não abre mão - a fazem sentir-se viva.
Normalmente está de bom humor, solícita, pronta para a família, os amigos... Agora diverte-se com os netos. Ser avó é poder divertir-se.

Não que ela não tenha seus maus momentos. Às vezes acorda de pé esquerdo.
Tenta manter secretos os maus momentos, e reinveste-se de energia viva do "divertir-se".

Quando a conheci, já faz quatorze anos, chegou desenganada, com o passaporte carimbado em direção à morte certa.
Entre altos e baixos, mais baixos pelos maus bocados que já passou, organizou-se e, aprendendo a viver com aquela "ela mesma tomada por grave doença degenerativa", apostou, em uma construção elaborada com cuidado, no "divertir-se" - permitiu a adolescência não vivida ser experimentada.
Não recebe muita compreensão por parte do Outro, mas isso não importa muito...
Uma carregadora de piano, que tem a percepção da guerra pulsional que ocorre em seu Eu-corpo, mas que opta ludicamente em brincar com os próprios limites - mesmo quando a adolescente abusa um pouquinho.

Vitoriosa com certeza. Permitiu que o processo de análise se ajustasse como auxílio. Há quatorze anos estamos juntos... Continuamos firmes e fortes nessa história de tempo longo.

Algumas pessoas são assim, outras não.


 *DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 14 de setembro de 2014

ENGODO



"Em suas implicações, a deformação de um texto assemelha-se a um assassinato: a dificuldade não está em perpetrar o ato, mas em livrar-se de seus traços."
(SIGMUND FREUD, 1939)


Em seu "Der Mann Moses Und Die Monotheistische Religion: Drei Abhandlungen", publicado em 1939, Freud tece críticas sobre a reconstrução, às vezes no intuito de falsificar "objetivos secretos", de uma história primitiva, utilizando-se dos primórdios do povo de Israel. Com a interpolação ficcional de "se Moisés fosse egípcio", Freud faz saltar da história contada, perdida no tempo, um duplo Moisés, condensado no herói hebreu, e um duplo Javé, condensado no Deus da aliança monoteísta. Tudo no texto histórico passa a ter duplos: personagens, deuses, lugares sagrados, e intenções. O próprio texto freudiano, que começa a ser redigido em 1934, sofre da armadilha, às vezes em prol de melhoras, às vezes em prol de adequações.

O mundo mental humano funciona de igual maneira. De sua história primitiva o homem nada sabe; os primórdios de sua história pessoal são uma reconstrução, às vezes criação de memórias, que preenche vazios, desfaz lacunas, reinventa um bebê que, em verdade, é projeção do olhar adulto. A memória nasce na passagem da criatura biológica à criatura humana. "Objetivos secretos" são expulsos do pensamento tido "normal".

Nossas instituições funcionam de igual maneira. Do texto original, que perde-se ao longo do tempo, pouco sobra de originalidade. As instituições humanas também falsificam sua história, às vezes em prol de melhoras, às vezes em prol de adequações que escondem "objetivos secretos" - propositalmente.

A citação freudiana de 1939, bem poderia ter sido de Dostoiévski, na boca de sua criação, o jovem estudante russo Raskólnikov, ao final de "Crime e Castigo". Destino humano?

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ROOTS



"Cara, tô um pouco mal... Tive um sonho mó estranho!!!"
"Sonhei que meu pai estava sonhando comigo, entende!!!"
"No sonho de meu pai, que era meu sonho, eu tava de cabelo cortado, de gravata e coisa e tal... Me sentia contente, feliz!!! Caminhava em direção ao escritório... Eu trabalhava em um escritório!!! Dava pra ler a placa na entrada do prédio bacana: BURROCRACIA."
"Aí vem uma parte mó estranha... muito estranha... Todo mundo lá dentro tinha cabelo dread, todo mundo lá dentro tava fumando baseado... Todo mundo lá dentro olhava pra mim como se eu fosse uma coisa esquisita de cabelo cortadinho e gravata!!!"
"Cara, acordei ofegante, me sentindo mal!!!"

O Movimento Rastafári (Cabeça da Paz) é um movimento religioso espiritualista, que tem como representante divino JAH - forma contraída de JAVE, encontrada no salmo 68:4 da Bíblia do Rei Tiago. Nascido na Jamaica, entre a classe trabalhadora e camponesa, o Rastafári prega a Paz e a Liberdade entre os Homens. De uma forma bastante comum encontrada em várias religiosidades espiritualistas, o Movimento Rastafári se utiliza da "maconha" como erva que proporciona a ponte espiritual de sua ideologia.
Estes são dados bastante interessantes - e distantes - para a atual discussão da legalização ou não da considerada "droga" maconha.
Particularmente não uso maconha, e nem faço apologia a ela - como certos discursos de moda, que mal conhecem a origem do que discursam. Apenas me peguei a refletir sobre o que acham os Rastafáris - movimento cultural respeitável - sobre o termo "droga" aplicado à sua erva sagrada.
Se é certo, e o é, que a maconha foi se distanciando do espiritualismo, e caindo em um vazio "pop" sem sentido, repleto de discursos exagerados e preconceituosos; também é certo que encontra-se inserida em um movimento religioso e de lastro de uma cultura.

Ao terminar a sessão, fiquei pensando em meu jovem paciente, honestamente Rastafári Sul-americano, distante da Jamaica, confundido e perplexo entre uma discussão interna moralizada de "certos" e "errados", tentando, de certa maneira, e de sua maneira, preservar a direção de sua própria identidade, ser o que deseja ser, assumindo com isso a dor e o prazer implicados em juros de eternos preconceitos superficiais, que, sem que ele mesmo se dê conta, o capturam e o corroem por dentro. Isso dói.

"Cara, eu tô tentando me organizar, tentando encontrar meu ritmo!!!"


 *DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

segunda-feira, 14 de julho de 2014

7 x 1



O Futebol é um dos esportes mais populares do mundo - um jogo lúdico de criatividade. Precisa-se de uma bola - que pode ser desde "bola de meia" até as de preço salgado das grifes esportivas -, e de qualquer coisa que sirva de trave - pedra, "pedaço de pau", trave mesmo.
Brasileiro do Brás paulistano, Charles Miller trouxe a bola na bagagem, no regresso ao Brasil, depois de longa temporada na Inglaterra. A bola se espalhou pelo país tupiniquim. Adentrou em todas as classes sociais do país, que se tornou o País da Bola.

O Futebol é um dos esportes mais populares do mundo. Criou-se em torno de sua popularidade, uma instituição para organizar o Futebol. A FIFA não é popular - transformou o Futebol em futebol, com a criação do "cartola". O "cartola", diferente do garoto da periferia, não entende de Futebol. O "cartola", diferente do garoto de periferia, gerencia futebol - e a bola de Charles Miller virou um dos maiores objetos do mundo capitalista, que não é o único mundo que existe.

A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil - o País da Bola -, foi uma homenagem ao Futebol. Mesmo os mau-humorados de plantão tiveram de fazer força contra a contagiante explosão de Futebol do garoto da periferia.
O Brasil, País da Bola, não é o único Brasil. Nele também se encontra o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, a Terra de Ninguém, o País da Desigualdade, o País da Impunidade... E por aí vai...

O Futebol é um patrimônio do Brasil, o País da Bola. Em consonância com o Futebol, a Cerveja e a Bunda (que me desculpem as feministas, isso é um elogio), também são patrimônios do Brasil. Futebol, Cerveja e Bunda, inseparáveis nas conversas de boteco.
A Bunda está, ultimamente, sofrendo de "mania", cada vez maior, deformando-se, deixando de ser "orgulho nacional". A Bunda está um horror.
A Cerveja não desce mais redonda. Provavelmente não é culpa da Cerveja, mas sim da "guéla" do brasileiro, que já não é mais a mesma.
O Futebol? Bem... Por ironia do destino, Müller não é Miller...

"Ruptura de Campo" é o nome que se dá, em Psicanálise, à ruptura de sentidos que aprisionam o Homem Psicanalítico à eterna repetição de um único destino, doente portanto. Através da "Arte da Interpretação" - Arte como a do Futebol -, a análise coloca o Sujeito em "Vórtice" e "Expectativa de Trânsito", ou seja, a criatura humana, sujeita à Psicanálise, entra em colapso com o próprio ato repetitivo, buscando, de acordo com a natureza da Psique, alternativas que vão se somando em direção ao Infinito - representação contrária ao que se conhece por Destino.

O Futebol?!? Ficou em 08 de julho de 2014...

11 min. (Thomas MÜLLER)
Passou pela minha cabeça a ideia de que "Deus é brasileiro... Deus vai ajudar..." - defesa infantil frente ao que já se anunciava desde o primeiro jogo da "seleção canarinho", uma tragédia desorganizada. Diferentemente dos pseudo-analistas esportivos, oportunistas da situação, distantes da "bola de meia" do garoto da periferia, Gustavo Hofman da ESPN Brasil já anunciava, há tempos, a interpretação: "A Alemanha trabalhou".

23 min. (Miroslav KLOSE)
O maior artilheiro dos mundiais fez, no País da Bola, as crianças brasileiras chorarem. Crianças grandes e pequenas foram se dando conta da onipotência de crer que "Deus é apenas brasileiro". As lágrimas apontavam para a desorganização mental e a falta de recursos defensivos contra a frustração que faz amadurecer - Angústia e Desespero.

24 min. (Toni KROOS)
Um pai afaga, carinhosamente, o filho desconsolado. Diz ao rapazinho: "Calma filho... Eu sei que dói... Mas isso é resultado do trabalho deles e da falta de trabalho nosso". O menino, diferentemente dos pseudo-analistas esportivos, propõem-se a refletir as palavras postas pelo pai - quem sabe um futuro plantado de outro jeito...

26 min. (Toni KROOS)
O País do Futebol grita, aos berros: "Ei, Dilma, vai tomar no c... Ei, FIFA, vai tomar no c..." - vórtice pronunciado.

29 min. (Sami KHEDIRA)
Um amigo me confidenciou: "Pô, Marcão... Fui 'tirar água do joelho' e, quando voltei, o placar marcava 5 pra Alemanha!!! Será que surtei?!?" - assistindo ao jogo na famigerada e urinada Vila Madalena.

69 min. (Andre SCHÜRRLE)
Nitidamente a Alemanha, que trabalhou sério em Santa Cruz Cabrália, ficou com pena - humilhação - da "seleção canarinho", que eu, amante do Futebol, sinceramente, não sabia mais como denominar... Perdi a referência da História do País da Bola. Eu? Nós? Quem?!?

79 min. (Andre SCHÜRRLE)
Sensacional chiste de Juca Kfouri, no "Linha de Passe" da ESPN Brasil - aliás, gostaria de parabenizar o canal pelo espetacular e sério Trabalho realizado -, tão interpretativo, que faço questão em reproduzir: "Nem Fred e nem Freud".
O rapazinho, o mesmo dos 24 min., ficou pensativo... Ao observar o time alemão, o eco das palavras do pai permanecia em sua cabeça: trabalho, trabalho, trabalho...

90 min. (OSCAR)
Fico me perguntando - coisa esquisita de analista -, será que o nome de família na camisa do Outro significa alguma coisa? Lembro-me da descrição dos épicos gregos, onde o guerreiro citava, minuciosamente, a origem do nome que representava na batalha, ouvido com respeito pelo adversário.
"Sou brasileiro (?)... Com muito orgulho (?)... Com muito amor (?)" - desculpem-me, mas uma falácia de hino no País da Bola que não sabe, nem se empolga com o próprio Hino.
Interessante o fato da promessa garoto-propaganda Neymar ter sofrido uma lesão nas costas... Costas que carregavam um país...

Hoje em São Paulo, metrópole do País da Bola, é segunda-feira... O burburinho acordou como sempre, apressado no paulistano que segue à trabalhar, em sua maioria, no aperto da condução pública. Estou em minha semana de férias - descanso após um semestre de trabalho -, provavelmente como a seleção alemã.
A impressão é de que tudo passou... A vida segue... As contas aparecem... As filas continuam. Talvez Dona Lúcia, que espero que exista, esteja a refletir sobre aquela "carta" aos scholars da CBF - outra instituição distante da "bola de meia" do garoto da periferia.
Expectativa de Trânsito... E que trânsito logo na segundona!!!

Tudo passa? Tudo passou?
Para o Futebol, no País da Bola, espero que não!!! Só me resta torcer, como amante de futebol que torce, para que o dia 08 de julho de 2014, a ruptura de campo, produza outras representações possíveis frente ao destino repetitivo da "incapacidade", "impunidade", "menos-valia", "pseudo-celebridades"... 
Não. Não pode passar...


sábado, 28 de junho de 2014

NOS JARDINS DO RATHAUS



"Assim aconteceu que adiei a ocasião de visitá-lo, até que se tornou tarde demais, e agora o que posso fazer é saudar seu busto nos jardins em frente ao nosso Rathaus."
(Sigmund Freud, 1932)

No inverno de 1899, após quase cinco anos de trabalho exaustivo, Freud terminava "A Interpretação dos Sonhos", obra que marca o início da Psicanálise, com a apresentação do que se conhece como a primeira tópica do aparelho mental. Fracasso editorial, a obra foi recebida com asco e violência pela comunidade científica - lastro dos primórdios de um método de investigação e cura que almejava ser a ciência geral da psique.
Anos depois, Freud encontra o livro "Phantasien eines Realisten", uma coleção de histórias de autoria do grande scholar austríaco Josef Popper-Lynkeus, publicado em 1899, que continha "Sonhar Acordado" - história que continha idéias muito próximas às apresentadas por Freud.
Freud, um trabalhador incansável mas desgastado intimamente por anos de críticas, encontrando-se descrente da possibilidade de uma civilização pacífica, vencida pelos impulsos destrutivos do homem e subjugada por desejos secretos e inconfessáveis, encontrou-se dominado ao encontrar tamanha sabedoria unida à sentimentos de profunda esperança em um Popper honesto, crítico, ao mesmo tempo que um homem afetuoso e humanitário, refletindo sobre os direitos do indivíduo: "Um especial sentimento de simpatia atraía-me a ele".
Freud e Popper nunca se encontraram pessoalmente, muito em circunstância do afastamento de amigos em comum frente à marginalidade em que o pai da Psicanálise fora posto.

Fiquemos a imaginar a cena de um velho Freud, a caminhar pelos jardins do Rathaus, parado em frente ao busto de Popper, curiosamente a observar o rosto daquele outro homem, intrigado com possibilidades confusas e paradoxais, intrínsecas às diferentes experiências de vida e compreensão de mundo.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

PSICANÁLISE, CIÊNCIA & FICÇÃO



De tempos em tempos, é anunciada a morte da Psicanálise. Aos Nostradamus de plantão, creio eu que a profecia está longe de se cumprir: a Psicanálise nunca esteve tão viva - e nunca foi tão necessária.
Em um mundo caótico, onde impera o Absurdo, a Psicanálise continua sendo, através de seu método exploratório ao mesmo tempo curativo, a mais importante candidata a ocupar o lugar de Ciência Geral da Psique - malgrado o "olho gordo" dos outros.
Estrategicamente posicionada entre a Psicologia, a Medicina, a Filosofia e a Literatura, a Psicanálise encara de frente perguntas e inquietações sem absolutamente cair na falácia da obrigação de "respostas prontas" ou no ardil de respondê-las com a própria pergunta "maquiada".
A Psicanálise simplesmente interpreta, e interpretando, rompe com pressupostos, relativizando a realidade, transmutada agora como verdade possível, frente à tantas outras verdades possíveis.
Antes de mais nada, é sempre bom lembrar, Freud foi um escritor - e dos bons. Os historiais clínicos, as peripécias teóricas, os mergulhos verticais em áreas como a Sociologia, a Antropologia, as Artes (destacadamente a Literatura), são verdadeiras obras de ficção. Ficção não é sinônimo de mentira, mas de ato criador, criativo, portanto pautado no imaginário humano que, por motivos óbvios, é o melhor instrumento para descrever o mundo humano. Freud, de tão bom escritor que era, criou um personagem fantástico, sobrevivente à todas as modas terapêuticas ao mesmo tempo que fundador de todas elas: o psicanalista.
O psicanalista, este ser da fantasia, cientista da desilusão - no sentido de fazer cair o pano que encobre os sentidos possíveis de ser humano. Posto que não é ninguém, é todos os possíveis ao mesmo tempo.
Como disse, a Psicanálise nunca foi tão necessária...
Acostumado que foi, o Homem se enquadrou na Lei de "tem de se enquadrar", perdendo completamente a subjetividade como possibilidade de saúde mental, transformando-se em autômato de atos sem sentido. O mundo humano, hoje, não possui mais sentido algum.
Como disse, a Psicanálise nunca foi tão necessária...
A Psicanálise resgata a história singular, a ficção particular do cotidiano, às vezes secreta, do sujeito. Cada ato do analista - a interpretação, pequenos movimentos desencontrados com o assunto considerado importante -, é e contém o enredo que é a vida do sujeito. Uma análise é história viva, portanto "não prova", "se prova".


segunda-feira, 28 de abril de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O AMOR



Amam-se profundamente
Estapeiam-se
Humilham-se
Ofendem-se

Amam-se honestamente
Chutam-se
Xingam-se
Escarram-se

Ele, para ela, é o pai presente que não houve
Ela, para ele, é a mãe ausente que não houve

Ela acredita ter o falo
Ele acredita que buraco em sola de sapato é sinal de humildade

Amam-se no incondicional
sadomasoquisticamente

De dia, a convivência é um inferno
De noite, na cama, fazem amor
Desrespeitam o pacto de ódio
cumplicidade

Amam-se como par perfeito
odiando-se eternamente.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

sexta-feira, 14 de março de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: EPÍLOGOS DE UM VERBO ATUADO



"Sabe... Eu danço e sou louco por ela..."

DANÇAR
Mover-se ritmadamente ao som de uma música.
DANÇAR
Dar-se mal, ter desvantagem em algo ou ser vítima de uma situação ruim.

A bailarina, ao dançar, jogada ao ar, voou como um colibri, enquanto a outra dançava feito uma galinha
d'angola.
O corrupto dançou no baile de formatura do filho, que quiçá dançará em um corrupto futuro.
Na festa de casamento, até quem  não sabe dança.

Beyoncé dança, Ivete dança ao imitar Beyoncé.
Dançou a moça, sob ecstasy e vodka, dançando freneticamente.
Quando dança, o corpo mostra as vísceras no contemporâneo.

"A dança é um abraço de uns cinco minutos."

A dança, imobilizada, é uma fotografia bonita.
Dançou com ela, mas não rolou.
Lustrou os sapatos pretos, tirou o pó do chapéu, e dançou pela madrugada da Lapa.

Em outros carnavais, a madrinha de bateria sambava, dançando.
No carnaval, a madrinha de bateria dança ao imitar um robocop performático.
Ah... Se eu dançasse assim eu não dançava no fim da noite.

Dança comigo?
No Natal, depois de algumas cervejas, dancei street-dance.
Danço com o gerente do banco, mas no banco da praça vejo a dança das pernas roliças.

Dancei com a gaiola na mão, tentando pegar a bailarina colibri.

"Eu não sei dançar!!!"


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: GEOMETRIA



"Aquele que tiver ouvidos para ver e olhos para ouvir que compreenda: o Diminutivo é uma merda!!!" - assim poderia ter falado Zaratustra.

Lá no fundo, lá, onde o peito se une à cabeça, podia-se ouvir seu sussurro: "Ser bonzinho e passar do ponto, me coloca em verdadeiras sinucas de bico". Eis a questão que o acompanhava: como sair ileso e não magoar o Outro? Ele sempre preferiu magoar-se...

O pai transparecia uma certa boa vontade pacata, talvez exageradamente um "cara legal" - o exagero não faz bem.
A mãe se agarrava à explicações metafísicas, quase delirantes, encaixando tudo em um sistema de "as coisas estão assim porque o Destino está reagindo àquilo que fizemos ontem" - o "ontem" não faz bem.

E o sussurro nele o empurrando a resistir ao Destino e a largar a familiarização de certa pacatez exagerada.

Se o Cristo de Nietzsche é exageradamente diminutivo, carregado de irritantes "inhos", o Super-Homem também não foge a regra - exageradamente superior e frio, nada humano, reflexo em negativo dos "inhos" de Friedrich...

O sussurro lá dentro é humano - dolorosamente humano.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O HOMEM QUE RESOLVEU SER SINCERO



Lembro-me bem... - péssima maneira de se começar um texto, posto que a memória é traiçoeira, e a memória do analista é pura ficção verdadeira.

Começou com um pequeno sentimento de tédio, que foi crescendo aos poucos e tomando conta de tudo. Graças a um peculiar humor, não se transformou em bruscos atos violentos nem em profundos mergulhos depressivos. Mas ficou um tédio profundo... Incômodo.
Seus afazeres se tornaram cada vez mais virtuais e automáticos. A conversa das pessoas eram burburinhos que, às vezes, tomavam um volume insuportável. As pessoas se tornaram um barulho insuportável.
O automático tomava, devagarinho, o sentido de ser ele.
Aliás, uma vez, ao perceber a loucura da metrópole em que vivia, resolveu não ter mais automóvel - quase foi internado pelos familiares e execrado pelos amigos - um verdadeiro absurdo não ter automóvel.

De sopetão, resolveu acabar com tudo. Iria ser outro ele, um ele sincero. Apesar da contramão de certa saudável hipocrisia social - e não há ironia aqui -, resolveu tomar como forma de cura ser ele sincero.
Uma forma mesclada de sutil sinceridade, somada a seu peculiar humor - já que o intento não era o de ferir os sentimentos alheios. Um esforço enorme, pois que para o velho ele tudo era alheio. Um ventre "malterno", um seio "malterno"...

A primeira experiência foi dura de ser vencida. Assumindo ele sincero o caminho do amor libertário, foi crucificado pelos mais próximos. "Como assim, você não vai namorar?!? Como assim, você quer ir na festa sozinho, sem ela?!? Aproveitador!!!"
Para ele outro, era apenas o exercício de sinceridade.

Talvez seja a sinceridade que dê conta da falta dele - não sei bem qual deles - na sessão que me fez devanear esta ficção psicanalítica.
Ser sincero é um ato de coragem... Mas tem um preço.

Será possível sermos realmente sinceros?


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)