sábado, 26 de outubro de 2013

TRACTATUS THEOLOGICO-POLITICUS



Em 1656, Spinoza foi excomungado do povo judeu. Sob a acusação de heresia, por ter apontado filosoficamente discrepâncias nos textos bíblicos, por ter afirmado a alegoria e a metáfora que, para o homem inculto, serviria de cabresto na escravidão do pensamento.
A sinagoga ficou em completa escuridão ao término da sentença...

"Os chefes do Conselho Eclesiástico fazem saber que, já bem convencidos das nocivas opiniões e atos de Baruch de Spinoza, procuraram, de diversas maneiras e por várias promessas, desviá-lo de seus caminhos desastrosos. Tendo em vista, porém, que não conseguiram fazê-lo adotar qualquer maneira melhor de pensar; que, pelo contrário, a cada dia têm mais provas das horríveis heresias por ele nutridas e confessadas, e da insolência com que essas heresias são promulgadas e difundidas, com muitas pessoas merecedoras de crédito tendo testemunhado isso na presença do citado Spinoza, este foi considerado plenamente culpado das mesmas. Por isso, realizada uma revisão de toda a questão perante os chefes do Conselho Eclesiástico, ficou resolvido, com a concordância dos Conselheiros, anatematizar o referido Spinoza, isolá-lo do povo de Israel e, a partir do presente momento, colocá-lo em anátema com a seguinte maldição:
Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, nós anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch de Spinoza, com a concordância de toda a sacra comunidade, na presença dos livros sagrados com os 613 preceitos neles contidos, pronunciando contra ele a maldição com a qual Elisha amaldiçoou as crianças e todas as maldições escritas no Livro da Lei. Que ele seja maldito durante o dia, e maldito à noite; que seja maldito deitado, e maldito ao se levantar; maldito ao sair, e maldito ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou o reconheça; que a ira e a indignação do Senhor queimem daqui por diante contra esse homem, carreguem-no de todas as maldições escritas no Livro da Lei e apaguem seu nome sob o céu; que o Senhor o afaste do mal de todas as tribos de Israel, coloque sobre ele todas as maldições do firmamento contidas no Livro da Lei; e que todos vós que fordes obedientes ao Senhor vosso Deus sejais salvos nesta data.
Ficam, portanto, todos advertidos de que ninguém deverá conversar com ele, ninguém deverá comunicar-se com ele por escrito; que ninguém lhe preste qualquer serviço, ninguém resida sob o mesmo teto que ele, ninguém se aproxime dele mais de quatro côvados, e que ninguém leia qualquer documento ditado por ele ou escrito por sua mão."

Spinoza viveu assim, tranquilo, a escrever seus textos. Teve alguns honestos e legítimos amigos. Quase foi assassinado - mas por engano. Recusando várias prospostas de auxílio financeiro em troca de certa utilização política de seu nome, Spinoza foi um exemplo de sapiência... Seu nome ficou na História da Filosofia.

"Frequentemente, ao ver pessoas que se vangloriam de professar a religião cristã - ou seja, amor, alegria, paz, moderação e caridade para com todos os homens - discutindo com uma animosidade bastante rancorosa e demonstrando diariamente umas para as outras um ódio tão intenso, fico imaginando se não seria esta, e não as virtudes que elas professam, o critério de sua fé."

Veio a falecer silenciosamente, aos 44 anos, vítima de tuberculose - ironicamente, nascera de pais tuberculosos.
Seu grande livro, não publicado, colocou-o numa pequena escrivaninha, trancou-a e deu a chave a seua senhorio. A escrivaninha, com chave e tudo, chegou a Jan Rieuwertz, editor em Amsterdã.

Fico me perguntando se as Escolas Psicanalíticas, com seus dogmas e, às vezes, infrutíferas discussões, não possuem certa relação com tudo isso?!?
Apesar de tudo, a escrivaninha com chave e tudo, continua viajando...