quarta-feira, 12 de setembro de 2012

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CHAPEUZINHO DE NEVE ADORMECIDA

  

AS PRINCESAS, NO PAÍS DAS FADAS, ESTÃO SEMPRE PRISONEIRAS DA NARRATIVA DO CONTO, POSTO QUE NO ABSOLUTO DA MORAL, QUEM CONTA UM CONTO NUNCA AUMENTA UM PONTO.
 
 
Era uma vez, há muito tempo atrás, uma princesa que fazia parte de um conto de fadas narrado por várias e várias e várias vezes. Ao final de cada narrativa, os ouvintes suspiravam de comoção: "Que linda história", "Que maravilha de conto", etc, etc, etc...
 
Nossa princesinha, que tinha o nome de Chapeuzinho de Neve Adormecida, não concordava com nada disso, pelo contrário, a enfadonha e eterna repetição da mesmice a incomodava deprimentemente: "Unf... Que saco!!!" - há tempos sua filosofia, que num crescente se tranformou em revolta.
 
"Chapeuzinho" em função da capinha que acabava por cobrir e esconder todo o corpo da mocinha, toda a forma do que lhe conferisse feminilidade.
"de Neve" em função da redoma fria que apaziguava a fornalha de seu coração desejante.
"Adormecida" que traçava o Destino de não acordar e, ao mesmo tempo, apontava para o Desejo de sonhar diferente a próxima página.
 
E a revolta continuava: "De que me adianta tudo isso?!? Princesinha, bonitinha... Mas ao final eternamente feliz para sempre, pfffff, nem beijo de lingua tem!!!"
 
"Resolvido: Quero sair fora deste conto!!!" - pensou lá com seus botões sempre bem abotoados.
 
Secretamente, apesar da marcação de suas duas mães, a Rainha de Espadas e a Rainha de Paus, foi consultar o Mago da Caverna do Topo da Montanha da página seguinte - criatura estranha, pois que nunca aparecia no conto, estando sempre na próxima página.
 
"Tú, mocinha, se queres tirar teu time de campo dessa chatice sem fim, ouve com atenção. Terás que atravessar a Floresta Púbis, comandada por uma de tuas mães, a Rainha de Paus, e efrentar o Trolloló e o Blá-Blá-Blazê, os guardas que cuidam da caminha que estica-e-puxa, porta para o mundo lá de fora deste treco sem graça... Entandeste bem?!?"
 
Bem... Então tinha jeito. Aguentar o Blá-Blá-Blazê até que dava, mas a Rainha de Paus a correr atrás dela, pernas-pra-que-te-quero!!! Pois por Deus, dizia-se a boca fechada, que a Rainha de Paus era um Rei que não tinha dado certo!!!
 
Mas, o Mago que de lobo-bobo não tinha nada, resolveu ajudar a princesinha - vejam bem, sejamos honestos, mais por curiosidade do que por bondade. Fundiu Trolloló com Blá-Blá- Blaze, criando um Valete de Copas a entreter as duas Rainhas.
 
Chapeuzinho mais que depressa foi pra caminha.
Puxa daqui, e lá se vai a capinha. Estica dali e a fornalha surge em explosão. Puxa e estica, estica e puxa, transformam-se em formas de um corpo. Até o Valete de Copas, por um fugaz momento, se esqueceu das Rainhas.
 
Pimba... "Estamos no Mundo de Verdade, minha gente!!!"

E assim foi caminhando a agora moça: amando, beijando na boca, sofrendo, trabalhando, voltando a beijar na boca - não mais eternamente, mas verdadeiramente feliz.
 
 
Moral da História
QUEM SE ARRISCA, DELICIOSAMENTE PETISCA-SE (com um bom vinho ou um chopp gelado)
 
 
*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)