segunda-feira, 11 de julho de 2011

GERMINAL

  
Gente que acorda cedo, bem cedo, e espremida na condução, vai ganhar o sustento de cada dia, salário que não serve nem para sobreviver.
Condução indecente para gente... Salário indecente para gente...


E o bando, pela planície rasa, toda branca de geada, sob o pálido sol de inverno, marchava, saindo da estrada, atravessando as plantações de beterraba.


Gente que trabalha, quando tem trabalho, para comer comida de segunda.
Bebe algo, senhor? Sobremesa, senhor?


O bando estacou. Esse não era um patrão, era um companheiro. Retinha-os o respeito por aquele velho operário.

Gente que sem dinheiro não é gente. Sem cartão de crédito não é gente. Sem grife na roupa não é gente.

Gente dominada por sonhos de consumo, ingeridos goela abaixo, sem tempo para digestão... Indigestão de gente.

Gente que já não sonha com comida, saúde e educação. Gente que sonha com Apple, TV HD, carro da propaganda. Gente que quer ser como a gente da televisão... Basta ter o tal cartão, ser cliente da rede diferenciada do banco tal... Gente que sonha com indigestão.


Um grande movimento fez girar o bando. Todos voltaram as costas e a correria recomeçou pela estrada reta, que se estendia pelo infinito, por entre as terras. De novo os gritos se elevavam: ‘Pão! Pão!’

Gente que se mistura em uma massa disforme, sem desejo, sem pensamento, sem roupa bonita nem cartão de crédito. Gente que aprendeu a não ter reflexão. Gente que aprendeu tudo pela televisão.

E nessa ferocidade crescente, nessa antiga necessidade de vingança cuja loucura fervia em todas as cabeças, os gritos continuavam, estrangulando-se, a morte aos traidores, o ódio ao trabalho mal pago, o rugido do estômago querendo pão.

Gente que quer ser jogador de futebol, que quer ser moça seminua do programa de TV.

Faz tempo que não há mais futebol.

Faz tempo que não se empolga mais com a seminudez da mulher.


O bando era cada vez maior, aumentando sempre com os companheiros apanhados pelo caminho e nas aldeias. Um bolsão de rancor rebentava neles, uma pústula envenenada, que se enchera aos poucos. Anos e anos de fome os torturavam, uma sede de massacre e destruição.

Gente que não tem diversão. Não há mais parques, varandas e jardins. Há concreto, suor, empurrão. Há cobrança, conta, insatisfação. Gente que não tem parâmetro de satisfação. Gente indigesta... Mantida afastada.

O escritório de cobrança agradece. O banco agradece.

Mas essas vinganças não enchiam a barriga. Os estômagos gritavam mais alto. E a grande lamentação dominou outra vez o tumulto: ‘Pão! Pão! Pão!’

GERMINA talvez, lá no fundo da gente, a possibilidade de acordar diferente, de olhar diferente, de destino diferente.

Uma outra vez o bando invadiu a planície rasa. Voltava sobre seus passos, pelas compridas estradas retas, pelas terras cada vez mais amplas. Eram quatro horas; o sol, que se punha no horizonte, lançava no solo gelado as sombras daquelas hordas, de grandes gestos furiosos.

Gente que não tem escuta. Gente que, entupida de remédio, entupida de cachaça, entupida de químicas sintéticas novas, vai sobrevivendo entorpecida... Alegremente... Caminhando e cantando e seguindo a Canção...


E do profundo silêncio emanava uma impressão de bonomia e bem-estar, a sensação patriarcal de camas fofas e mesa farta, de felicidade tranquila em que decorria a existência dos proprietários.

Gente que é propriedade. Movida prá lá e prá cá. Caminhando e cantando e seguindo a Canção.

Gente que na visceralidade do Corpo e da Alma é igual a toda gente: nasce-se pulsando para a morte; sente-se fome e sente-se prazer sexual; luta-se pela sobrevivência da identidade, do civilizado sobre o primitivo.

A Palavra, às vezes, desabafa no oco da gente.


Os trechos citados são de GERMINAL, de ÉMILE ZOLA, escrito em 1881.