sexta-feira, 22 de abril de 2011

BAL – A Doçura, A Linguagem & O Indizível


Impressionante como em pleno século XXI, tempo de avançada tecnologia, onde o próprio tempo relativiza-se mais rápido do que podemos acompanhar, o cinema tem a possibilidade de produzir um drama tão profundamente poético e tão intensamente existencial como a produção turco-alemã “BAL”.

Com extrema sensibilidade, em uma obra que adquire vida própria, o filme – verdadeiro “tratado sobre o Pai” - retrata um recorte na existência do pequeno pré-escolar Yusuf, em sua intensa relação com o pai, a batalha na aquisição da linguagem, e a angústia do amadurecimento, portanto, da perda.
O cenário, uma isolada área montanhosa em meio à floresta, nos remete a algo deliciosamente medieval, sem as turbulências e barulhos ao quais estamos, seres metropolitanos que somos, acostumados. O silêncio da floresta já conduz a uma estranha angústia – o Estranho.

O pequeno Yusuf quase não fala. Sussurra apenas com seu pai, um cultivador e apanhador de mel. Herói retratado do ponto de vista do infante, o pai sobe em árvores gigantescas para trazer o mel doce e carregado da labuta pela sobrevivência.
Um pai doce, cúmplice, que alerta que “nossos sonhos não se espalham”, devem ser secretamente cuidados.
O filme é entrecortado, sem aviso prévio, pelos significativos sonhos de Yusuf, que já dizem o que ainda não se sabe.
Um doce olhar de pai, que vai tecendo as nuances identitárias do filho.

A mãe aparece totalmente deslocada da construção. Com ela Yusuf não fala. Um pouco de temor. O copo de leite que não se toma, por mais que ela tente se aproximar carinhosamente do filho.
A ausência do pai é que permite o encontro entre mãe e filho, quando ambos, perdidos, comunicam-se pela angústia do não retorno do doce olhar paterno.

A Linguagem é outro ponto existencial no enredo. A batalha de Yusuf em conseguir ler e receber a “medalinha” na escola, representa a dor e a vitória do amadurecer – amadurecer que acompanha, dolorosamente, o não retorno do pai. A floresta engoliu o pai.

O filme utiliza-se de uma interessante técnica de câmera: um enquadre estático, sem movimento – os personagens surgem e desaparecem no enquadre, fica apenas o som como resto do que acontece.
A técnica do enquadre fez-me lembrar Clarice Lispector em “Água Viva”, expressão do Silêncio: “O que é uma janela, senão o ar emoldurado por esquadrias?”.

Ao final do filme não ficam sons, mas imagens – resto do Indizível, resto de Angústia, resto de Perda. Remete-nos a fazer qualquer coisa para preencher a falta de som.

Fica aqui a sugestão...
...e também o agradecimento a Igor & Ludimila pela indicação e pelo presente.


MAIS INFORMAÇÕES SOBRE "BAL"