quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DESCANSAÇO


Dois Mil e Dez está acabando... Estou cansado... Bom sinal!!!

Outro dia jantamos “comidinhas” no “Adega Santiago”. Em meio a chope e caipirinha, falamos dele. Ele que se foi em 2006 e deixou muita saudade. Muito apropriado falar dele entre chope e caipirinha – ele gostava disso... Foi bom... Comemoramos despretensiosamente com ele. Senti que o brilho de meu olhar não tinha me deixado.

Dois Mil e Dez está acabando... Comigo!!!

Redescobri a Psicanálise em três momentos maravilhosos.
Redescobri a Psicanálise assistindo “Valsa com Bashir”... Foi bom, muito bom!!!
Redescobri a Psicanálise na casa de Virgínia, em um mais que legítimo Sarau – desta vez, lembrou-me os que aconteciam na casa dele. Só tenho de agradecer aos amigos que tenho, pois “é disso que necessitam os homens, quando lhes pesa a circunstância”. Carmo Murano presenteou a Psicanálise com a ótima adaptação de Beckett - “Godot & Outros Becketts” foi mágico, realmente mágico.
Redescobri a Psicanálise no “Seminário de Leitura Assistida”, onde depois de um pouco mais de cem anos, pude ouvir Dora novamente – e quão interessante foi nosso encontro.

Dois Mil e Dez está acabando... Sinto saudades daquele meu olhar...

Às vezes, acredito que as férias de um analista servem para deixá-lo com saudades da sala de análise, das visitas e encontros com o Homem Psicanalítico.

A Psicanálise é uma espécie de praga: quando pega, não larga mais!!!

Dois Mil e Dez está acabando... Mas me sinto bem!!!

Sinto em ter de comunicar ao senhor, mas sua doença é grave!!! O senhor pegou um tipo de verme raro e, infelizmente, fatal!!! Chama-se Psicanálise: primeiro gruda na pele e vai fazendo buraquinhos – é a fase de incubação -, depois se deposita no interior do corpo e vai corroendo a alma do hospedeiro!!! Sugiro que tire umas férias, participe de algum churrasquinho com os amigos, assista um pouco de futebol, veja uma comédia ou romance hollywoodiano...

Dois Mil e Dez está acabando... Finalmente!!!


sábado, 20 de novembro de 2010

DIFICULDADES ESPECÍFICAS DA TEORIA DA SELEÇÃO NATURAL AO SOM DE CARMINA BURANA DE CARL ORFF



FORTUNA IMPERATRIX MUNDI


Peixe elétrico, eletricidade, torpedo gerador

Gimnonoto... Não sabemos para que servem!!!

Raia que rasga com sua cauda elétrica-fálica!!!

Matou o homem da televisão,

Aquele que brincava com os bichos!!!


I PRIMO VERE


Insetos com órgãos luminosos... Órgãos?!?

Órgãos... Grãos de pólen que capturam zangões!!!

Zangados molhados!!!

Orquídea selvagem & Asclépia sedutora... Tão distantes,

Tão semelhantes – pelo menos para os zangados zangões!!!


UF DEM UNGER


Olhos de Cefalópodes

Olhos de ver... Bem fechados!!!

Um antepassado comum escopofílico?!?

Parece que sim,

Talvez não...


IN TABERNA


Crustáceos com pelos no estomago!!!

Coitados... Não bebem cerveja!!!

Alguns na terra, outros na água...

Coitados... Não bebem cerveja!!!

Sem boêmio antepassado comum... Incomum!!!


COUR D’AMOUR


Orifícios de abrir e fechar

Coleópteros excitados

Asa emplumada de uma ave & asa membranosa do morcego?!?

Quatro asas da borboleta + duas asas da mosca = duas asas e dois élitros do coleóptero

Nada é poupado pela Seleção Natural


BLANZIFLOR ET HELENA


A de Tróia?!? Acho que não... Acho!!!

Sementes vegetais

Vaginais

Umas, leves, se entregam para o vento.

Outras, são possuídas pelos zangões.


FORTUNA IMPERATRIX MUNDI


A Seleção Natural avança sobre degraus insignificantes,

Lentos,

Firmes,

Como os seios de Duília

Machado... O de Assis!!!


domingo, 10 de outubro de 2010

FREUD & DARWIN


Em 1831, aos 22 anos de idade, Charles Darwin embarcava no Beagle rumo ao litoral da América do Sul e das Ilhas do Pacífico. Naturalista, faria ao longo de cinco anos a bordo do navio britânico, um excepcional acúmulo de provas, pesquisas e análises, que culminariam em 1859 na publicação de “A Origem das Espécies” – apresentação da construção de sua Teoria da Seleção Natural.

Sigmund Freud, em 1900, publicaria a “Interpretação dos Sonhos”, apresentando ao Mundo suas experiências a bordo da Sala de Análise, em um mergulho pelas profundezas da alma humana.

Os dois notórios cientistas travariam então, uma verdadeira Luta pela Sobrevivência de suas revolucionárias idéias e pensamentos; luta que se estende até os dias atuais.

Freud, por diversas vezes, apontava em Darwin a responsabilidade pelo segundo grande golpe no Narcisismo do Homem: o Homem não é um ser especial, proveniente do Divino, mas sim um produto da Evolução e Adaptação ao Meio, criatura da seleção realizada pela Natureza, incluído como qualquer outra espécie deste pequeno Planeta Azul.


Lucille B. Ritvo, em seu livro “A Influência de Darwin sobre Freud”, expõe com precisão a relação entre os dois pensamentos. Abaixo, segue uma pequena resenha do livro de Ritvo.


A INFLUÊNCIA DE DARWIN SOBRE FREUD, de Lucille B. Ritvo (editado no Brasil pela IMAGO), é o primeiro livro a revelar o pleno impacto sobre Freud, da efervescência criada pelas obras de Charles Darwin. Ritvo mostra como o Método e as idéias de Darwin desempenharam papel seminal nas descobertas psicanalíticas básicas de Freud - Sexualidade Infantil, Conflito, Regressão, o Significado e a Função dos Sintomas, a coexistência de opostos no Inconsciente e a relação entre Perversão e Normalidade. Darwin fez da História, um Método Científico à Psicologia, com resultados igualmente surpreendentes.
O período em que Freud cursou a escola secundária, de 1865 a 1873, coincidiu com a divulgação do trabalho de Darwin no mundo de língua alemã, bem como com a publicação alemã de “A Variação de Animais e Plantas em Domesticação” e a “Descendência do Homem”. Como Freud mais tarde recordou, "as teorias de Darwin, que então eram de interesse corrente, atraíram-me fortemente, pois apresentavam esperanças de um extraordinário avanço em nossa compreensão do Mundo". Ritvo afirma que foi Carl Claus, professor de Zoologia de Freud na Escola Médica da Universidade de Viena, mais que seu professor de Fisiologia, Ernst Brücke, como até agora se julgava, quem formou Freud nos rigores da Biologia Darwiniana. Um novo capítulo da história é aberto pela revelação que Ritvo faz sobre a importância de Claus para Darwin. Ela mostra que enquanto outros exageravam ou interpretavam mal a teoria de Darwin, Claus difundia-se cuidadosamente com o primeiro Manual Darwiniano de Zoologia. Segundo Ritvo, Freud aplicou os três princípios enunciados na “Expressão das Emoções” de Darwin, em seu primeiro livro psicanalítico, “Estudos sobre a Histeria”. Ritvo encontra vinte referências positivas a Darwin ao longo dos textos de Freud.
O livro mostra lucidamente como Freud, bem formado na Biologia Darwiniana, transformou a Psicologia em uma Disciplina biologicamente enraizada: a Psicanálise. Assim, propicia uma nova base para a compreensão do trabalho de Freud.

Lucille B. Ritvo é Historiadora da Ciência e da Medicina.
 
 

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: PERDER O JUÍZO


Na SALA DE ANÁLISE vou para perder o juízo. Vou ao encontro de OUTRO, sem juízo, em mim!!!

Vou para o desencontro comigo... Vou para a SALA DE ANÁLISE!!!

Para lá vou, onde posso ser OUTRO.

Visto-me com a melhor pele que tenho, a melhor roupa da alma.


Se estou TRISTE, vou com minha melhor TRISTEZA.

Se estou ALEGRE, vou com minha melhor ALEGRIA.

Se estou ANGUSTIADO, vou com minha melhor ANGÚSTIA.

Se estou DOENTE DA CABEÇA, vou com minha melhor CABEÇA DOENTIA.

Se estou CARENTE, vou com minha melhor CARÊNCIA.

Se estou APAIXONADO, vou com minha melhor PAIXÃO.

Se estou SOZINHO, vou com minha melhor SOLIDÃO.

Se estou LOUCO, vou com minha melhor LOUCURA.

Pois é para a SALA DE ANÁLISE que vou.


Vou para EU, no continente desencontrado, no lugar em que tudo cabe, na relação solitária com o OUTRO de meu DESEJO.

Vou perder o JUÍZO, para verdadeiramente encontrar-me na RAZÃO do que sou...


VOU PARA A SALA DE ANÁLISE: LUGAR SEM JUÍZO, LUGAR ALGUM.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: NOTAS DE UM DIÁRIO PERDIDO NO TEMPO DE UMA ESCOLHA


Na DÚVIDA, eterniza-se um GOZO. Como escolher?!? Se tomar uma coisa, ganho-a, perdendo outra.

A DÚVIDA paralisa-me. Há um GOZO em ficar retido no tempo entre uma ESCOLHA. Nada acontece... Não aconteço.


Em Límbia, há um ditado popular – que me foi passado às escondidas, ao pé do ouvido. Em Límbia, os ditados populares são DIÁRIOS, trancados a sete chaves e atirados no mais profundo dos mares limbianos.

SEXO E SANGUE TODO MUNDO GOSTA” diz o ditado.

O ditado me faz lembrar TOTEM E TABU, Diário Freudiano de 1913.

SEXO E SANGUE: Componentes interessantes de um drink conhecido por FASCÍNIO – mistura perfeita de dosagens de RIDÍCULO/SEXO e ASCO/SANGUE.

Matamos o PAI PRIMEVO para termos SEXO... Enfim!!!

Na DÚVIDA, um GOZO...

Escondo o ROSTO com as mãos, para OLHAR por entre as frestas dos dedos!!!


O que há por detrás dos montes do SENTIDO MANIFESTO?!?

O que Será que Será?!?

Para onde somos guiados?!?

O que Será que Serei após o CARNAVAL?!?

Talvez serei EU o PRODUTO e o RESTO de SEXO E SANGUE!!!

Que tenha-se PIEDADE de mim!!!

O que Será que Será que Serei?!?


Na DÚVIDA há um GOZO!!!

Bem... Na DÚVIDA... Melhor não obter resposta sobre certas coisas!!!

Apaguemos a LUZ... Boa noite de sonhos prá Nós!!!


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

sábado, 10 de julho de 2010

ACERCA DO “HOMEM DOS LOBOS”


Relendo o caso clínico do “Homem dos Lobos” (FREUD – 1918 – História de uma Neurose Infantil), questionei-me: Qual a origem da complexa rede sintomática apresentada por Serguei?

Talvez, pensei eu, ao deparar-se com a “cena primária” (representação do sexo entre seus pais), o “Homem dos Lobos” tentou - durante toda sua existência – responder a uma questão identitária: Quem sou EU nessa cena? Quem sou EU nesse par? Sou masculino ou feminino? Ativo ou passivo?

Talvez, pensei eu, a gênese do “Homem dos Lobos” encontra-se na impossibilidade da “crença” em resolver o impasse entre identidade e realidade, tão caro ao homem em seu mundo.

Reproduzo abaixo, um interessante Artigo sobre a questão.

HOMEM DOS LOBOS – UM NOME PARA SERGUEI (Carmen Silvia Cervelatti)

A vida do Homem dos Lobos, diferentemente dos outros casos freudianos, foi uma vida psicanaliticamente pública e publicada até seus últimos dias, quando morreu aos 92 anos de idade. Graças a essas publicações, podemos ter acesso aos desdobramentos de suas análises com Freud e Ruth Mack Brunswick. Chamou-me a atenção encontrar no livro de Karin Obholzer o fato dele referir-se como Homem dos Lobos ao atender ao telefone.

É digno de nota que o Homem dos Lobos, Serguei Pankejeff, além de se identificar socialmente como Homem dos Lobos, raramente usou de seu patronímico Constantinovitch. O patronímico é o nome do pai justaposto ao do filho nos nomes completos russos, ele indica de qual sujeito Serguei é filho.

Além das teorizações em torno ao nome próprio, que não tratarei neste trabalho, em nossa sociedade, o nome próprio diz respeito ao uso do sistema de parentesco, envolvendo a transmissão de patrimônio, que é individualizada, segundo o Código Civil. Neste sentido, acredita-se que se tem um nome próprio, mas, na verdade, o nome recobre um quantum de gozo. Éric Laurent salienta que na Psicanálise isto foi percebido, embora de maneira obscura. São conhecidos alguns casos de Freud, como nome de objetos particulares, como nomes de objetos de gozo – por exemplo, o Homem dos Lobos ou o Homem dos Ratos, que foi assim batizado, pois o rato era um objeto central, condensador de gozo, causa de horror para aquele sujeito. "O nome enquanto nome de gozo é apagado na ilusão de sermos nomeados enquanto indivíduos, mas ele se revela pelo uso que o mercado de nomes faz dele. O nome fica reduzido a um princípio de identificação."

Homem dos Lobos ganha função de nome – um nome de objeto de gozo – que passou a funcionar, pelo processo de transformação, como um signo desde que veio representar alguma coisa para alguém, segundo a concepção de Charles Sanders Peirce. Seja esse alguém o próprio Serguei Pankejeff, ou qualquer um do conjunto formado pelos psicanalistas e estudiosos da obra de Sigmund Freud. É nesse contexto que essa denominação teria função de nome próprio desde que é aí que todos sabem a quem essa denominação se refere, ou seja, há uma significação instantânea, imediata e comum a todos: é o paciente de Freud que sonhou com lobos que olhavam para ele, desenvolvendo, em seguida, uma fobia de lobos. Não podemos nos esquecer de que ele, enquanto Homem dos Lobos, sempre esteve sob o olhar de, no mínimo, um psicanalista. Mas continuamos ainda com a pergunta: que função teve para o sujeito apropriar-se desse nome? Afinal, ele se apegou, em vez de apagá-lo, ao nome de gozo e fez uso deste.

"Há o nome próprio que se faz com o Nome-do-pai, e o que se faria sem o Nome-do-pai. Foi com Joyce que Lacan introduziu em seu ensino essa hipótese, em suas conseqüências clínicas, de um nome próprio feito sem o Nome-do-pai, no 'fazer para si um nome'". Da mesma maneira que acompanhamos Lacan nessa leitura, ao nomear o escritor James Joyce como Joyce, o sinthoma, acompanhamos Éric Laurent em sua elaboração de que o "nome próprio do Homem dos Ratos é o rato enquanto objeto de horror", pois o nome próprio pode ser feito com um ciframento particular do gozo.

E em nosso caso? Por que lobo? Como ponta da flecha que atinge o alvo está lá o lobo deflagrando a angústia nessa criança quando sonhou com os lobos. Através da análise do sonho delimitou-se, metonimicamente, o objeto fóbico na figura do lobo em pé, no livro de figuras. Durante sua análise com Freud, esse sonho foi o ponto central, um elemento condensador, que obteve uma função fundamental por possibilitar uma série metonímica e por condensar a angústia de castração. Depois de terminada sua análise com Freud, LOBO continuou sendo o objeto privilegiado de Serguei, objeto viabilizador de gozo, de satisfação pulsional, demonstrado dedutivamente pelo seu apego a esta identificação: "eu sou o Homem dos lobos". Então, o nome próprio do Homem dos Lobos é o lobo enquanto objeto a ser evitado, mas também é o objeto que fixa a posição do sujeito como aquele a ser olhado, ele se fez ser visto enquanto Homem dos Lobos.

Ainda a propósito, quero salientar a parte do texto freudiano dedicada à cena com Grusha, no Capítulo III, o sonho com a Wespe mutilada em Espe (que não quer dizer “vespa”, como ele pensara). Frente à pontuação de Freud, Serguei dá uma solução: "Mas Espe, então, sou eu mesmo: S.P.", ou seja, diante do enigma da castração, Serguei responde com letras, as letras que são as iniciais de seu nome. Esse sonho veio esclarecer uma lembrança recorrente em sua análise, mas que até então estava solta e isolada. Recapitulando: havia uma lembrança desarticulada, um sonho vem dar-lhe uma simbolização, vem dar-lhe um lugar no material associativo produzido pela análise, e, ao final, frente ao inconsciente cifrado, ele responde com as letras de seu nome: S.P sou eu.

Lacan explicita a nomeação que se dá em cada um dos três registros: a nomeação do Imaginário coincide com a inibição, a nomeação do Simbólico se dá na forma de sintoma e a nomeação do Real se passa como angústia. Com esses dados podemos tecer outra articulação ao sonho gerador de angústia – os lobos se portam como elemento condensador, é a própria presença do objeto de gozo, que vem dar nome ao real. Essa nomeação circunscreve, delimita, põe limite e parada à angústia, que passou a ser deflagrada somente quando o menino via a figura do lobo em pé, no livro de figuras, situação facilmente evitável. Os lobos do sonho vieram circunscrever e permitir nomear algo do Real, sem passar pelo Simbólico, vieram circunscrever a angústia para esse sujeito, metaforizada ou representada em LOBO. A lembrança desse sonho no trabalho de análise fez aparecer outros contextos encadeados a lobo. A partir desse momento, e neste sentido, LOBO obteve valor de puro significante. Um significante que veio simbolizar algo, que está no lugar de. Aqui acompanho Agnès Aflalo, que a neurose infantil, mais especificamente a fobia, serviu-lhe de suplência à foraclusão do Nome-do-Pai, uma vez que a fobia de lobo deu algum contorno, amarrou os elos soltos, de alguma maneira funcionou como uma solução para aquele menino.

Encontram-se mais subsídios para nossa questão, com Jacques-Alain Miller em seu Seminário A Orientação Lacaniana III – Le lieu et le lien [2000-2001], de 10 e 17 de janeiro de 2001: "Por que Lacan, num dado momento, pôs-se a glosar sobre a nomeação em seu último ensino, e cuja argumentação nem sempre aparece desdobrada? Por que o problema da nomeação? Porque a nomeação é uma suposição. É a suposição do acordo do simbólico e do real. É a suposição de que o simbólico se harmoniza com o real. [...] O nome próprio é um ponto de capitonê, não entre significante e significado, mas entre simbólico e real, a partir do qual nós nos situamos com relação às coisas, ou seja, com o mundo enquanto representação imaginária."

Sob a forma do nó borromeano, Simbólico e Real permanecem disjuntos, mas não mais separados. Há duas formas de articulação: o nó borromeano e a cadeia de significantes; todavia, somente no nó os elementos permanecem disjuntos. Embora esteja lá cada um por si e numa não-relação radical entre si, eles devem ser tomados em uma relação.

"Se nós não supomos esse acordo milagroso do simbólico e do real, então é preciso um ato. Esse ato não pode ressaltar senão o ponto de capiton primordial que é o Nome-do-Pai. É por isso que Lacan faz dele o pai do nome, o pai que nomeia, aquele que assume o ato de nomeação e, através disso mesmo, que liga o simbólico e o real". Com isso, não podemos colocar Freud ou quem quer que seja que tenha apelidado esse paciente, como o pai que nomeia. Quando Freud tomou a iniciativa de recolher fundos entre os psicanalistas para prover o Homem dos Lobos, esse ato pode ser imaginariamente tomado dessa maneira, como uma atitude paternal.

Há alguns elementos privilegiados que guardam uma relação íntima entre si. A cena primária (trauma primordial) funciona como um primeiro elemento e passa a dar lugar a sucessivos desdobramentos que localizam a relação de Serguei com o pai. Ele queria obter satisfação do pai, queria dele receber o presente duplo (pelo aniversário e pelo Natal) e queria também ser o seu único herdeiro. Quis provas de amor do pai.

Apoiar-se na posição de rico recobria a relação narcísica com o pai. Serguei perde todo seu patrimônio e volta a procurar por Freud, que lhe dá dinheiro. Percebe a doença de seu primeiro analista e tem um episódio paranóico, hipocondria, que, segundo a sua psicanalista na época, estava sustentada sobre uma megalomania de crer-se como o filho favorito de Freud, já que não o fora de seu pai.

Os "ataques" de Brunswick desmantelando a crença na posição de filho favorito de Freud levaram a uma mudança no paciente que, segundo os relatos encontrados, resultaram na "cura" desse episódio paranóico hipocondríaco apresentado pelo Homem dos Lobos e a não reincidência até o final de sua vida. Depois de sua "cura", como se pode acompanhar nas conversas do Homem dos Lobos com Obholzer , ele fez-se ver durante todo o restante de sua vida por algum analista – afinal "eu sou o Homem dos Lobos" (o caso mais célebre de Freud).

Finalmente, ter sido apelidado como Homem dos Lobos e, posteriormente, assumir-se como tal, provavelmente, foi uma nova suplência, novamente uma outra amarração, dando contorno a uma vida estável. Funcionou como um ponto de capitonê, como ponto de basta, estabilizador da subjetividade desnorteada desse sujeito. Tanto é que nunca mais teve qualquer outro episódio que pudesse ser chamado de psicótico. Brunswick retirou-lhe sua ficção de filho predileto de Freud, mas, como uma hipótese, podemos propor que tomar "Homem dos Lobos" como nome veio atingir algo do real, algo fora do sentido; o simbólico nomeou o objeto de gozo e deu-lhe um lugar. Assumir-se enquanto Homem dos Lobos permitiu-lhe harmonizar Real e Simbólico, fazendo um grampo, pois isso teve alguma efetividade, até o fim de seus dias.

FONTE: CLIPP - Clínica Lacaniana de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise (Texto publicado no Boletim Um-por-Um no. 29 por ocasião do IV Congresso da EBP – “Clínica da Nomeação”)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O COTIDIANO: A MAIS BRILHANTE CRIAÇÃO TAUTOLÓGICA


As coisas são e se dão assim porque assim são as coisas. Esta é a moralizadora Rotina do Homem Cotidiano e de seu Mundo.

Santa Rotina, é bom que se diga, cria e faz com que possamos “ir vivendo” sem mergulhar em certo tipo de “questionamento paranóico” sobre “quem somos” ou “em qual dos mundos possíveis que vivemos”.

Explico melhor: o EU é uma entidade aberta para infinitas possibilidades de ser. Podermos acreditar em uma unidade coesa do EU é uma ilusão, um tipo de erro necessário do Psiquismo, que faz com que vivamos fora da corajosa aproximação do Real. Podermos acreditar que vivemos em uma realidade coesa, compartilhada, em um Mundo racional carregado de tropeços, alegrias, mazelas, destinos, crenças, acertos e erros, é obra de um sistema psíquico que cria um Mundo – frente a tantos outros possíveis – para a existência de um EU – frente a tantos outros possíveis. Vejo o que vejo porque o que vejo fabricou meu olhar.

Somos um “entre” duas lógicas distintas que coabitam o mesmo espaço – como os “universos paralelos” explorados nos Clássicos da Ficção Científica – a Lógica Produtora Inconsciente e a Lógica Racionalizadora da Consciência.

Melhor assim... Bem melhor assim... Acreditarmos nessa unidade entre EU e Mundo, Identidade e Realidade. Caso contrário, ao afrontarmos esta tão brilhante criação do Psiquismo, talvez a mais bela das tautologias, abrimos as portas do Inferno e mergulhamos no que os Homens costumam denominar de LOUCURA. Experimento e experiência fascinantes, diga-se de passagem, mas que deve se reservar para a Viagem Psicanalítica na Sala de Análise.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: SUPEREU


LIBERTAR-ME?!?
Eu não entendo...
Eu não quero entender...
Eu não posso entender!!!


SER-ME EM MINHAS POSSIBILIDADES?!?
Eu não entendo...
Eu não quero entender...
Eu não posso entender!!!


RECONHECER-ME EM MINHAS LIMITAÇÕES?!?
Eu não entendo...
Eu não quero entender...
Eu não posso entender!!!


RESPONSABILIZAR-ME POR MEU AMADURECER?!?
Eu não entendo...
Eu não quero entender...
Eu não posso entender!!!


Olha... Hoje eu não vou... Não estou muito bem!!!
Vou faltar ao desencontro... Acomodar-me em minhas mazelas, minhas mesmices!!!
Desculpa tá!!!



* DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

sábado, 10 de abril de 2010

COLISEU

O povo se aglomera, grita, empurra, entra em êxtase. É dia de espetáculo no Coliseu.
Aos tropeços, vão tomando seus lugares. Há para a pobreza, há reservado “vip” para a nobreza. Há especiais – estranho – para além da nobreza.
Pois que isto é assim. Depois de um dia de trabalho, uma semana de trabalho, anos de trabalho, o homem deve se divertir, espairecer um pouco a cabeça, esquecer um pouco o cansaço, identificar-se com o todo – posto que no Coliseu todos são iguais.

Vai... Tempo não há muito para que se inicie o espetáculo... Vai ao banheiro dar uma mijada ou outra coisa mais nobre... Vai... A programação vai começar!!!

Hoje tem coisa especial, programação das boas.
Primeiro um pequeno desfile de mulheres de “sei lá de quem são”, abandonadas, nuas, acorrentadas... Mas exibindo seus corpos com muito orgulho, isto sim, “sim senhor”.
Depois um pouco de sangria com os gladiadores. Eles lutam entre si, são belos e fortes e desejados os gladiadores. Recebem salário e coisa e tal. Recebem, pelo menos os que sobraram, os restos das mulheres de “sei lá de quem são”.
Os gladiadores, pelo menos os que sobraram, vão com valentia. As feras são soltas e caçadas e desmembradas.
O povo berra, se esperneia, se embriaga.

Vai... Ainda há tempo para uma pegação no corredor. Com quem?!? Oras, não importa, pegue alguém e pronto. Divirta-se... Passe um pouco a mão... Beije... Copule um pouco... Ninguém é de ninguém ou todo mundo é de todo mundo, como diz o carinha lá no canto.

Chegou a hora dos “bodes”. O ápice do espetáculo.
Entram os humilhados escolhidos a dedo, a polegar.
Por favor, sem frescura, os “bodes” nasceram prá serem “bodes”, não importa de que tipo... Os temos desde cristãos e assassinos, até gente de primeira, artistas e nobres.
O povo urra de gozo.
A melhor parte... Vão ser açoitados, judiados, escarrados, violentados... Vão ser desmembrados, devorados, vomitados...
O trem é bom demais... O povo adora... Afinal, o trabalhador precisa de diversão. Precisa de algo que mostre e demonstre a diferença. Aquilo lá não é gente oras!!!
O povo agonia o momento de participar. Polegares preparados... Prá cima... Prá baixo... Como é bom o poder de decisão. O povo precisa de distração, é direito adquirido prá quem paga tudo direitinho!!!

Acho que a pegação continua no corredor... Tem gente que não sabe o que faz... Perde os bons momentos do Coliseu. Tem cada uma!!!

No fim do dia o desfile. Os nobres e as damas desfilando nas elegantes e limpinhas bigas. Dá quase prá tocar, sentir... São o orgulho do povo que trabalha prá poder se divertir... É direito adquirido.
Não gostas do desfile dos nobres?!? Não tem problema não... No corredor a pegação continua solta!!!

Enfim, e por fim, há cidadãos que preferem não entrar no Coliseu. Gente esquisita... Como pode?!?
E olha que o ato é de fácil execução... Basta escolher, com certa dose de paciência (é bom que fique dito), um Canal melhor do Controle Remoto que seguras em tua mão.

quarta-feira, 31 de março de 2010

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CANIBALISMO

PREGUIÇA em PENSAR-SE.
PENSAR-SE... Este ATO que nos mergulha no AQUERONTE de nossas profundezas... Nosso Rio do Infortúnio.
CARONTE, o barqueiro, nos convida a um passeio.

Há certo tipo de VIVER que coloca tudo em um “diminutivo costumeiro”, repleto de “-inhas” e “-inhos”.
Diminutivo Costumeiro...
Implacável... Disputante...
Moto-contínuo de ingerir o Outro para SER-SE... Impossibilidade... Viver para além de diminutivos.
Quem ingere quem? Em qual ordem?

PREGUIÇA em PENSAR-SE.
Ao virar-se a face, percebemos CARONTE com nosso próprio rosto.
É mais cômoda a PREGUIÇA.

Agradeço a um Limbiano por estas reflexões.

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

MORRER-SE


A MORTE castra...
A MORTE finda...
A MORTE talha...

MORRE-SE a Infância...
Morreu o Álbum de Figurinhas que se preencheu
Morreram, ao fim do ano, a Escola e os amigos da Escola
Morreu o gol marcado no campinho da praça

A MORTE castra...

MORRE-SE a Adolescência...
Morreram os ídolos que ficaram velhos
Morreu, nos segundos que antecedem a união dos lábios, a sensação do primeiro beijo
Morreu a ilusão de Rock Star

A MORTE finda...

MORRE-SE a Maturidade...
Morreu o prazer após o orgasmo
Morreu o Fim de Semana no fim do Domingo
Morreu o Sonho ao acorda-se o dia

A MORTE talha...

Mas MORRER-SE é a possibilidade de renascimento de jeitos outros possíveis
MORRER-SE é enlutar-se para o Novo de Amanhã
MORRER-SE é o Vórtice Infinito de VIVER o Cotidiano, não apenas sobreviver a ele.

PS.: Se existe um Paraíso dos Homens, deve existir um Paraíso dos Cães... Que o “BOLINHA” divirta-se nele!!!

domingo, 10 de janeiro de 2010

TO MY BROTHER

Nós nos distanciamos... Nós nos aproximamos...
Voltaremos a nos distanciar!!!

Sempre os Mesmos... Sempre diferentes Outros...
Sempre amadurecendo...
Amadurecemos!!!

Acho que ficamos orgulhosos de Nós!!!

No Fim do Ano aproveitaremos, juntos, a Neve...
Que há de cair!!!