sexta-feira, 27 de março de 2009

CRÔNICAS SOBRE O DISFARCE: O DRAMA

O Humano possui uma estranha paixão pelo Disfarce.
Se a Vida é um DRAMA,
Ela o é pela meticulosidade daquilo que criamos... Um Disfarce Dramático.
Solipisista por natureza, o Disfarce Dramático dá voltas em torno do próprio umbigo.
Mas o que é o umbigo, a não ser o ponto de partida daquilo que somos?!? A ruptura da confortável posição do não-existir!!!
Então vivemos...
Vivemos por termos saudades do tempo em que não éramos.
Se o Disfarce Dramático revela o Equívoco do Humano, o revela através de uma Repetição de queixumes... Repetição de carência e solidão... Saudade de um tempo em que a queixa não se fazia sentido.
A Queixa, a porta-voz do Disfarce Dramático, estanca a possibilidade de disfarçar-se diferente, trancafiando o Ser em um movimento circular em que o Passado é posto num Re-memorar e não num Com-memorar.
Eis a possível lógica do Discurso Dramático: o Rememorar solitário, sem a possibilidade de eco no Outro... O Gozo de um queixume no vazio... Sem diálogo interno... Apenas monólogo.
A Ruptura do Campo do Drama, muitas vezes encontrado nos sintomas neuróticos, não é trabalho fácil. Particularmente acredito no fazer gastar-se o discurso, desbastá-lo lentamente. Como um artesão a trabalhar a madeira primitiva, com carinho e paciência, a Escuta vai por si só abrindo espaço para a interpretação do monólogo queixoso do Drama... Onde o diálogo talvez possa vir a ser e a ter existência, e o Disfarce tome o rumo de uma Fantasia de Carnaval.

sábado, 21 de março de 2009

ANALISTA: Astronauta, Estrangeiro, Transeunte


O Analista é um ASTRONAUTA, como em "Jornada nas Estrelas", deixando que seu divã passeie por onde a Psicanálise não parece estar, descobrindo/interpretando novos mundos, novas civilizações... Para além da compreensão cotidiana e rotineira das coisas. O cotidiano e a rotina escondem lógicas outras, lógicas emocionais a serem interpretadas no Universo de Possibilidades de Ser.

O Analista é um ESTRANGEIRO, convidado a viajar por Terras distantes da habitada por ele, escutando línguas outras que não a de seu domínio (se é que existe domínio sobre o discurso). Tendo como bússula as ressonâncias de seu próprio Ser, ouve no silêncio do que não é dito, as cores das palavras... Pois as palavras possuem cores e a Alma Humana produz sons coloridos através do toque sutil dos desdos do interpretante.

O Analista é um TRANSEUNTE... Está apenas de passagem, quando convidado e agradecido em um compartilhar solitário sobre o Desejo do Outro, que resiste em não ser ouvido. Pois que o Desejo é assim, surdo para os ouvidos de que o produz - o Homem Psicanalítico - este Ser/Objeto da Psicanálise - crise representacional de nossos tempos. Um Transeunte, que entra e sai procurando não deixar vestígios de sua presença.

O ANALISTA é assim... Seu consultório se fazendo presente onde se fizer o Analista, às vezes para além das paredes... Em um mergulho na Cultura - em qualquer forma de representação do Real Humano que nos captura em Individualidades-Sujeito.

POR UM POUCO DE (des)ILUSÃO...


Pois que te peço... DESILUDA-ME!!!

Receba-me assim, despretenciosamente, como a quem recebe um estranho conhecido. Que não sejas capturado por meus gestos... nem por minhas "caras e bocas"... nem por minhas histórias!!! Que prestes atenção em minhas entrelinhas... Para que leias o estrangeiro que há em mim... Estes vários... Estes que desconheço!!! Estes que existem para além do que me aprisiona... me conserva rigidamente como me conheço, por e para o Outro.

Acompanha-me depois entre meus caminhos, que insisto em não reconhecer... Crendo serem desconhecidos, onde apenas não sei que sei de mim!!! Pois que não duvides... Resisto a saber!!!

Interpreta-me... Rompa com o conservadamente conhecido!!! Arranca-me deste Eu que não sou... Nunca fui!!! Pois que assim me apresento para Estes diferentes... Representações outras... Possibilidades outras!!! Pois que no rodopio angustiante da desilusão de mim mesmo, me faço mais Eu do que nunca experimentei... Simplesmente por poder ser vários!!!

Portanto te peço,

DESILUDA-ME

Para que, transitando livremente por Estes que sou, possa ter um pouco de ILUSÃO... Neste mundo tão sem-sentido de si... Neste Mundo tão sem-sentir!!!