domingo, 27 de dezembro de 2009

FELIZ ANO QUE FINDA

Vou até a sacada do apartamento... Acendo um cigarro.
Ouço o barulho dos carros, as buzinas, a aceleração dos motores, o brecar, os garotos turbinados...
Nada tenho a dizer, apenas ouço!!!

Lá pelas 18h, o bando de maritacas faz barulho. O mesmo de sempre.
Nada tenho a dizer, apenas ouço!!!

No Shopping, paro prá tomar um café expresso – prefiro o de coador, é mais café.
Ouço o burburinho do bando de gente a cantarolar compras de Natal, ou qualquer outra coisa. Não importa o assunto... Não importa...
Nada tenho a dizer, apenas ouço!!!

Na festa, com uma cerveja gelada na mão, ouço palavras soltas no ar... Assuntos diversos a bailar ao redor da mesa pronta prá santa ceia.
Me encontro entre pessoas queridas... Pessoas...
Nada tenho a dizer, apenas ouço!!!

Você quer conversar comigo, contar teus projetos para o Ano que Nasce.
Meu Ato de Conversar, compreender, está cansado... Cansando... Cerveja Gelada... Vinho Gelado.
Nada tenho a dizer, apenas ouço!!!

FELIZ ANO QUE VEM!!!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A AUSÊNCIA PERSPICAZ


O Desencontro há na possibilidade do Encontro. Na Ausência há Vazio.

Conta-se em Límbia - nos momentos em que os Limbianos, em noite ensolarada, festejam seus mitos e folclores – a história de uma Mulher que adoeceu por Esquecimento.

Havia uma Mulher, diz a lenda local, que desejava que o Mundo à sua volta a adorasse, a idolatrasse, a desejasse total e completamente. Queria ela ser o centro de todas as atenções e percepções cabíveis e incabíveis.
Certo dia, como acontecem certos dias, a Mulher se apaixonou por um de seus incansáveis pretendentes.
Coube ao azarado ser depositário então - como cabe normalmente aos azarados, pois que sempre aparece uma dessas moribundas criaturas -, de todos os caprichos, pedidos e desejos da Mulher. Uma lista interminável de solicitações era duramente criticada, posto que a satisfação nunca fosse alcançada, por mais que o desajeitado amante – que vez por outra era até ajeitado – se esforçasse no intento.
Você não gosta de mim o suficiente”, “Você me esquece com frequência”, “Você deixa a desejar nas minhas vontades”, “Me surpreenda, pois que teus agrados são fracos”... E o coitado vivia a escutar e escutar e se esforçar e esforçar e se enforcar.
Um belo dia porém – posto que certos dias são belos, por incrível que pareça -, o rapaz juntou suas forças e teve a idéia de surpreender a Mulher com um jantar.
Marcou data e hora – encontros são com data e hora marcada. Fez o que podia e o que não podia. Armou e se arrumou... Tudo de bom... Tudo de bem...
A Mulher sentia-se em esplendoroso regozijo, pois que enfim teria uma surpresa exclusiva para ela, feita sob medida para seus incansáveis pedidos. E ficou a sonhar e a pensar e a gozar e a delirar com o tal jantar – “Que seja bom”.
Data e hora corretas. O amante a postos. A mesa armada com carinho. Os pratos escolhidos minuciosamente. A cidade inteira convidada a aplaudir e elogiar e brindar a insuportável Princesa.
E o homem esperou e esperou... E o povo esperou e esperou...
Diz a lenda que o rapaz até hoje espera desesperado a Mulher.
E a Mulher? O que se passou?
Em sua expectativa alucinada, a Mulher esqueceu o encontro marcado. Até hoje, na data e hora certas, ouve-se o choro descabelado de uma louca a reclamar com a própria cabeça o ato de ausentar-se do mais importante de todos os encontros.

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: IMPEDIATISMO

Os Limbianos possuem um Sistema Político próprio. Mais próximo daquilo que compreendemos por Moralidade, o Impediatismo Limbiano possui particularidades muito interessantes.

O Impediatismo se faz como Regime Político individual: cada Limbiano possui um sistema próprio, regido por lógica e regras próprias. Poderíamos considerá-lo como uma Autocracia sobre si mesmo. Portanto, apesar da dificuldade, imaginemos que dentro de cada Limbiano houvesse um Ditador e uma Massa autômata a segui-lo indiscriminadamente.
Similar aos nossos registros históricos da Era dos Césares da Roma-Império, o Sistema Impediatista Limbiano possui cobrança de taxas e punições severas a qualquer tipo de contravenção de si por si mesmo.
O nome “Impediatismo” sugere uma união linguístico-ideológica dos termos “Impedição/Interdição” e “Imperialismo”.

O Impediatismo possui Data Especial Comemorativa, que se dá de acordo com o grau de cidadania alcançado, e que pode variar de uma a cinco vezes por semana, em ritual próprio que dura aproximadamente cinquenta minutos.
Nesse Ritual Comemorativo, os Limbianos ficam a devanear em arrependimentos, em sala fechada acompanhados por Ninguém, sobre atos heróicos e aventureiros que nunca se fizeram por realizar – ritualística conhecida popularmente como “Se Eu Tivesse Feito Assim”.

Apesar de ser uma Política individual, o Impediatismo possui uma figura fantástico-religiosa que funciona como centralizadora e catalisadora da lógica básica de todo o Sistema. Denominada de “Eu Superior” ou “Eu Acima de Mim”, esta abstração ainda possui a importante função de passar o Impediatismo a cada nova geração de Limbianos.

Reitero a veracidade destas anotações, verificadas pela própria percepção do Autor, em suas várias expedições exploratórias a Límbia.

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

domingo, 27 de setembro de 2009

COM-MEMORAÇÃO: EXPERIÊNCIA HUMANIZADORA NUMA FESTA DE FAMÍLIA

Ontem estive presente a uma Festa de Família – as Bodas de Prata de meus primos Luizinho & Solange – da parte SORIANO de meu sobrenome.

Experiência interessante: Bodas de Prata em pleno Mundo Contemporâneo.
Lembro-me do discurso meio sem jeito de meu primo ao final da cerimônia religiosa... “É difícil... Os valores mudaram bastante...”. Fato incontestável que, pareceu-me, não abalou o entrecruzar de olhares ao proferirem, o casal, o quanto a cumplicidade ainda existia.
Um sentimento bom foi sentido e ficado em mim.

Experiência interessante: SORIANO é a parte paterna de meu sobrenome.
Meu pai, Sr. Dércio, se foi a pouco mais de sete anos. Quando me encontro com o espelho, reconheço a insistência de sobreviver em mim o mesmo tipo de sorriso, algumas mesmas rugas no canto dos olhos... Sinais de um tempo que passa, mesmo que eu não perceba a passagem do tempo...
Penso num certo jargão psicanalítico – aquele da Morte do Pai -, e, mesmo reconhecendo-o necessário para o amadurecimento do Sujeito, me questiono se é possível, ou melhor, se é tranquilo. Às vezes, se dá como se eu mesmo não desejasse tal Morte. Às vezes, sinto profundamente a cobrança – que nunca foi feita – de me igualar a meu pai, talvez no intuito de superá-lo de alguma forma... Resquícios de uma Análise – A MINHA.
Um sentimento de saudade e de conflito foi sentido e ficado em mim.

Experiência interessante: Sou um verdadeiro “Estrangeiro” em minha parte SORIANO da Família.
Intimamente sinto falta, muita falta deste “pertencer” carregado de Família. Uma coisa meio Tribal, meio Totêmica, meio “coisa de sangue”. SORIANO, meu sobrenome paterno, o que carrega o gene do Macho/Masculino – segundo meu tio Candido “Corinthiano” Soriano, já velhinho, senil, mas com a mesma voz forte que me trazia o “pertencer”: “SORIANO que é SORIANO tem o famoso dedinho torto no pé”.
Tia Luiza fez a parte de tradução para este Estrangeiro – explicando minuciosamente quem era este, quem era aquele, quem era aquela... Todos SORIANOS.
Como Turista, fiz questão de registrar algumas fotos com primas e primos... Sangue do mesmo sangue que corre em minhas veias... Todos acredito, com o famoso “dedinho torto no pé”.
Um sentimento de íntimo acolhimento pertencente foi sentido e ficado em mim.

Experiência interessante: Raros Momentos fugazes em que, parece, algo se resolve e se tranquiliza em mim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: ALGUMAS NOTAS SOBRE OS LIMBIANOS

Transcrevo aqui duas anotações de meu Diário, sobre as viagens por Límbia, território fantástico, situado em algum lugar entre o Olímpo e o Aqueronte.
Perdoem-me as dificuldades de tradução das idéias limbianas para a compreensão em nosso Mundo Humano.

43 de abril do Futuro do Pretérito
Uma das características mais impressionantes dos Limbianos se encontra no fato de nascerem já adultos, muito provavelmente em decorrência dos efeitos onto-sócio-gravitacionais deste estranho lugar.
Ao acompanhá-los mais de perto, tive a oportunidade de observar que estes, os Limbianos, passam horas, dias, semanas, meses e anos criando histórias sobre a própria infância inexistente. Constroem, portanto, elaborados relatos ficcionais sobre amor, ódio, rejeição, culpa e frustração; verdadeiros Reinados, repletos de intrigas e disputas sobre Objeto inalcançável, posto nunca ter existido. Após meticulosa construção, vivem a história ardentemente – situação ritualística, inserida em uma espécie de “re-memoração”, a que denominam “Sintoma”.
Creio que a própria História de Límbia passa por processo semelhante.
A quebra deste ato ritualístico, estranhamente denominada de “com-memoração” ou “Cura”, é punida com o exílio para um local de infinitas possibilidades de existência – o que é muito temido pelos Limbianos, por significar uma espécie de “liberdade de si mesmo”.

43 ½ de abril do Futuro do Pretérito
Na presente data tive uma experiência interessante. Inserido em uma conversa cotidiana com os Limbianos, percebi a violência com que repudiam o fato de alguém ouvir o que não deve ser ouvido.
Intrigante!!! Eles, os Limbianos, possuem uma espécie de Classificação para os ouvintes: os “surdos e meio”, que são muito bem vistos e possuem certa hierarquia social – pelo óbvio motivo de não ouvirem nada e mais um pouco de nada que não se pode -; e os “meio surdos”, considerados inadequados e relegados a uma classe de não-cidadãos, portanto, discriminados – por ouvirem meias palavras ou palavras no meio do discurso que, segundo os estudiosos e criadores de tal Classificação, ou seja, os próprios Limbianos, absolutamente não existem e são fruto de um Distúrbio de Percepção.

*Denomino carinhosamente “Limbiano” o Ser Ficcional – o Homem Psicanalítico - que habita o Consultório do Analista e que, portanto, inclui o próprio autor destas linhas. Ao Homem Psicanalítico, esse Ser da Crise Representacional, presto minha homenagem.
*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

CHOCOLATE

Ao assistir o Filme “Chocolate” (Direção de Lasse Hallström, EUA, 2000), fiquei me perguntando: Qual seria o segredo das receitas dos chocolates da jovem mãe solteira Vianne?

O Chocolate, diz a experiência de quem já experimentou (se é que existe alguém no Mundo que ainda não tenha tido essa tântrica experiência), nos leva à uma espécie de nirvana dionísico.
Representante de prazeres, atualizador de um agora infantil, eliciador de traquinagens enlambuzadas, o Chocolate nos captura intensamente. Pois afinal, Quem saboreia Quem? Nós o Chocolate ou o Chocolate a Nós?

No filme, de extrema sensibilidade, os chocolates de Vianne vão transformando as estranhas figuras de uma pequena Cidade rural da França. Com sua loja bem em frente da Igreja local, as receitas milagrosas vão provocando rupturas na repressão daquelas pessoas – autômatos em busca de um sentido para além de suas íntimas e secretas angústias.

Mas e Vianne, nossa heroína que vai para onde o Vento do Norte soprar?
Vianne, esperta em acertar a receita individual e sob medida para cada angústia - numa espécie de antídoto contra a mesmice -, no fundo também está em busca de si mesma. Tentando encontra-se em seus chocolates e nos segredos dos que ajuda. Tentando reescrever, através da relação de amor e culpa com sua filha de seis anos, a própria história da não raiz, do não lugar.

Eis, talvez, o segredo das receitas de Vianne – colocar-se e buscar-se em seus chocolates, reconhecendo a incompletude de Ser.

sábado, 27 de junho de 2009

CREPÚSPULO DOS DEUSES

Minha esposa ao telefone: “Você não sabe quem morreu?!?
Eu não fazia a menor idéia!!! Quem seria? Alguém próximo não era, pelo teor e tom de voz do outro lado da linha. Bem... Eu também não era.
O Michael Jackson morreu!!! Deu um treco no coração dele!!! Tá passando em tudo que é canal!!!
Hum... MJ morreu... E Eu com isso... Nem gostava do cara, achava a maior esquisitice do Planeta. A última imagem que tinha dele, resgatada em minha memória, era a de um corpo branco emborrachado, coisa meio alienígena, tendo que se defender de uma série de acusações de pedofilia. Nem sei se o cara ainda gravava alguma coisa.
A defesa alegou uma infância carente de afeto paterno... O pai o achava feio. O menino se negou a crescer – releitura de Peter Pan, que gostava de dormir e brincar com crianças. Sei lá... A gente nunca sabe!!!

Inegavelmente, Michael Jackson pode ser considerado ícone de uma Era – os Anos 80 -, com seu glamour, suas renovações históricas no videoclipe, as milionárias vendas de LP, mega-shows circenses carregados de avanços tecnológicos. Em todo o Planeta, todos sabem pelo menos um trecho de alguma música de Michael. Desde os “Jackson Five”, suas baladas animaram “pegas” em bailinhos de garagem, junto com coquetéis caseiros como cuba-libre, hi-fi e meia-de-seda.

Há, acredito, um preço em ser ídolo. Nascido para ser amado e odiado simultaneamente, nele projetamos o que há de mais belo e de mais horrendo, nossos desejos e frustrações.
Michael Jackson se plastificou em vida, e a Morte o plastifica para sempre.

Vivi minha juventude nos Anos 80. Desapercebidamente, a morte de MJ faz emergir a sensação de luto pelo desaparecimento de meus anos dourados que, para sempre, sobreviverão plastificados em minha lembrança... Pois que lembranças não morrem, zumbificam-se.

Desligo o telefone. A vida continua e o próximo paciente está para chegar. Uma sensação estranha me invade... Estranho... Pô, Eu nem gostava do cara!!!
Estranhamento... Curti muito os Anos 80... Uma tímida lágrima escorreu por dentro de minhas lembranças.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

PENSANDO O PENSAMENTO: EUS EM MIM


O Pensamento, indiscutivelmente, é uma legítima produção do Psiquismo.


Normalmente funcionando no automático, o Pensar inicia-se como forma defensiva contra nossas frustrações cotidianas: pensamos “certo” ou “errado”; justificamos nossas culpas e nossos méritos; projetamos no Outro e reagimos instantaneamente a essa imagem de nós mesmos; reprimimos nossas formas preconceituosas ou argüimos nossos pré-conceitos; confundimo-lo com o Raciocinar; e mais algumas bateladas de coisas que poderíamos acrescentar a uma lista que tenderia ao infinito.


Mas, questiono-me: Para além do automático, será que usamos com precisão e aproveitamento o Pensamento?


Se aprofundarmos a questão, partiremos do princípio que o Pensamento é, antes de tudo, um diálogo interno entre Eus que coabitam o espaço em Mim.


Em um sentido psicanalítico, este diálogo interno que gera o Pensar, deveria produzir um desencontro, uma ruptura de sentidos possíveis em uma espécie de rodopio e crise de desconstrução.


Desencontro, Ruptura, Rodopio e Crise Desconstrutiva que, para além de uma função meramente defensiva contra representações destoantes e dissonantes do Eu Cotidiano, nos pouparia de negligenciar energia psíquica em discursos sofistas ou tautológicos.
Pois que no desencontro de meus Eus encontro meu possível; na ruptura de meus sentidos, surge o inesperado em mim (essa eterna aventura de e do Ser); no rodopio que me desconstrói, apresentam-se novos ângulos possíveis de e para minhas formas de olhar.


Portanto, não maltratemos mais o Pensamento... Pensemos antes em “curá-lo” de certa psicopatologia do automático.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: A MULHER QUE COLECIONAVA-SE AOS PEDAÇOS

Conta-se em Límbia, pois que o povo de lá gosta de contar e ouvir histórias, que em um certo momento perdido no tempo, houve uma criança que aprendeu que o valor das coisas era muito importante e representativo para as pessoas.

A tal criança desenvolveu então, a idéia de que as coisas representavam o valor das pessoas.

A criança cresceu mulher e começou a colecionar coisas que representavam e indicavam seu valor para os que tivessem bom gosto para admirar.

Para os pés, vários pares de sapato, de salto baixo à salto alto, feitos pelos maiores artesãos da região... Para o corpo, belas roupas de grife, de camisas à vestidos... Para os membros, jóias de todos os tipos, desde que fossem adquiridas pelo valor mais alto possível, de acordo com o alto padrão com que eram feitas... Para a cabeça, além dos adornos costumeiros de trato com o cabelo, algumas belas bolsas, pois que é fato, pelo menos em Límbia, que quem desejar conhecer a cabeça de uma mulher, que conheça o que esta carrega na bolsa.

O tempo foi passando e a coleção de valores aumentando...

Um belo dia, as coisas de valor se revoltaram contra o corpo da mulher... Lutaram e conquistaram indepêndencia.

Pois conta-se que até hoje, no shopping de Límbia, naquela lojinha de antiguidades esquecida no canto nenhum, na esquina não sei de onde, ainda paira o corpo da mulher, pendurado em um cabide, com um certo desconto, esperando um comprador.

Confirmo a história com meus próprios ouvidos, presentados por Ninguém, que é como os habitantes de Límbia se autodenominam.

DADOS CARTOGRÁFICOS
Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e outras ficções freudianas. Casa do Psicólogo, São Paulo, p.34

sexta-feira, 27 de março de 2009

CRÔNICAS SOBRE O DISFARCE: O DRAMA

O Humano possui uma estranha paixão pelo Disfarce.
Se a Vida é um DRAMA,
Ela o é pela meticulosidade daquilo que criamos... Um Disfarce Dramático.
Solipisista por natureza, o Disfarce Dramático dá voltas em torno do próprio umbigo.
Mas o que é o umbigo, a não ser o ponto de partida daquilo que somos?!? A ruptura da confortável posição do não-existir!!!
Então vivemos...
Vivemos por termos saudades do tempo em que não éramos.
Se o Disfarce Dramático revela o Equívoco do Humano, o revela através de uma Repetição de queixumes... Repetição de carência e solidão... Saudade de um tempo em que a queixa não se fazia sentido.
A Queixa, a porta-voz do Disfarce Dramático, estanca a possibilidade de disfarçar-se diferente, trancafiando o Ser em um movimento circular em que o Passado é posto num Re-memorar e não num Com-memorar.
Eis a possível lógica do Discurso Dramático: o Rememorar solitário, sem a possibilidade de eco no Outro... O Gozo de um queixume no vazio... Sem diálogo interno... Apenas monólogo.
A Ruptura do Campo do Drama, muitas vezes encontrado nos sintomas neuróticos, não é trabalho fácil. Particularmente acredito no fazer gastar-se o discurso, desbastá-lo lentamente. Como um artesão a trabalhar a madeira primitiva, com carinho e paciência, a Escuta vai por si só abrindo espaço para a interpretação do monólogo queixoso do Drama... Onde o diálogo talvez possa vir a ser e a ter existência, e o Disfarce tome o rumo de uma Fantasia de Carnaval.

sábado, 21 de março de 2009

ANALISTA: Astronauta, Estrangeiro, Transeunte


O Analista é um ASTRONAUTA, como em "Jornada nas Estrelas", deixando que seu divã passeie por onde a Psicanálise não parece estar, descobrindo/interpretando novos mundos, novas civilizações... Para além da compreensão cotidiana e rotineira das coisas. O cotidiano e a rotina escondem lógicas outras, lógicas emocionais a serem interpretadas no Universo de Possibilidades de Ser.

O Analista é um ESTRANGEIRO, convidado a viajar por Terras distantes da habitada por ele, escutando línguas outras que não a de seu domínio (se é que existe domínio sobre o discurso). Tendo como bússula as ressonâncias de seu próprio Ser, ouve no silêncio do que não é dito, as cores das palavras... Pois as palavras possuem cores e a Alma Humana produz sons coloridos através do toque sutil dos desdos do interpretante.

O Analista é um TRANSEUNTE... Está apenas de passagem, quando convidado e agradecido em um compartilhar solitário sobre o Desejo do Outro, que resiste em não ser ouvido. Pois que o Desejo é assim, surdo para os ouvidos de que o produz - o Homem Psicanalítico - este Ser/Objeto da Psicanálise - crise representacional de nossos tempos. Um Transeunte, que entra e sai procurando não deixar vestígios de sua presença.

O ANALISTA é assim... Seu consultório se fazendo presente onde se fizer o Analista, às vezes para além das paredes... Em um mergulho na Cultura - em qualquer forma de representação do Real Humano que nos captura em Individualidades-Sujeito.

POR UM POUCO DE (des)ILUSÃO...


Pois que te peço... DESILUDA-ME!!!

Receba-me assim, despretenciosamente, como a quem recebe um estranho conhecido. Que não sejas capturado por meus gestos... nem por minhas "caras e bocas"... nem por minhas histórias!!! Que prestes atenção em minhas entrelinhas... Para que leias o estrangeiro que há em mim... Estes vários... Estes que desconheço!!! Estes que existem para além do que me aprisiona... me conserva rigidamente como me conheço, por e para o Outro.

Acompanha-me depois entre meus caminhos, que insisto em não reconhecer... Crendo serem desconhecidos, onde apenas não sei que sei de mim!!! Pois que não duvides... Resisto a saber!!!

Interpreta-me... Rompa com o conservadamente conhecido!!! Arranca-me deste Eu que não sou... Nunca fui!!! Pois que assim me apresento para Estes diferentes... Representações outras... Possibilidades outras!!! Pois que no rodopio angustiante da desilusão de mim mesmo, me faço mais Eu do que nunca experimentei... Simplesmente por poder ser vários!!!

Portanto te peço,

DESILUDA-ME

Para que, transitando livremente por Estes que sou, possa ter um pouco de ILUSÃO... Neste mundo tão sem-sentido de si... Neste Mundo tão sem-sentir!!!