sexta-feira, 17 de novembro de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: CORAGEM


"Ter bondade é ter coragem"
(Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá / Renato Russo)


Um homem bom, sem sobra de dúvida.
Para os amigos, é considerado buona gente. Para a família é um idiota.

Teve que ter muita coragem para decidir em certo momento - ou continuava na posição cômoda de estar protegido pelas finanças do pai, mas aprisionado na imagem que este exigia dele; ou buscava a liberdade afetiva, assumindo a própria vida.
Decidiu-se por ele: "A liberdade que sinto agora, não tem preço"

Coragem - capacidade de agir apesar do medo, do temor e da intimidação; não a ausência de, mas a ação para além de.
Coragem - o uso da razão a despeito do prazer.

Seguiu sua vida.
Experimentou certas privações e certas humilhações, decorrentes de acusações e ridicularizações sobre sua perda financeira e de sua liberdade pessoal de ser quem gosta de ser.

Às vezes ainda se pega pensativo, sentado em algum balcão de padaria.
"Coragem vale à pena?" - pergunta o fantasma do pai.
Perdido em suas divagações, volta a seu cotidiano pelo chamado de algum amigo: "Meu chapa, você por aqui? Posso tomar um café contigo?"
E, abrindo aquele seu peculiar sorriso fraterno, se responde rápido: "Ô se vale... E como vale"
E se sente feliz, entretido na conversa cotidiana.


*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

terça-feira, 17 de outubro de 2017

NOTÍCIAS DE LÍMBIA: O GUARDA-SOL



Perdeu um pouco de tempo observando "O Guarda-Sol" de Francisco de Goya, pintado em 1777. Durante o tempo perdido, foi absorvido pela obra, que se encontra no Prado desde 1870. Imerso no clima galante e refinado do rococó, sentiu-se numa atmosfera marcada pelo desencanto e pela ironia. Estranho pela exposição da experiência, pôs-se a andar desencontrado, estrangeiro da própria vida. Onde normalmente agitado, um depressivo surgiu sem pedir licença. Perdeu tempo...

Um seco inverno ártico é o tempo marcado pelos ponteiros do relógio depressivo. Um tempo que se perde na brancura assustadoramente infinita, tempo letárgico que abre brecha para um pensamento em excesso. Pensa-se demais e pensa-se mais um pouco. Parte-se de nenhum lugar e chega-se a lugar algum. Território propício para o império de um Supereu que castiga com vagarosas construções idealizadas, acusações culposas, auto-estima abaixo de zero, e um poderoso ódio que, sem espaço, torna-se frustração angustiante e paralizadora.

Um úmido verão tropical é o tempo marcado pelos ponteiros do relógio maníaco. Tempo multicor que, de tanta cor, confunde a percepção. Um alucinante suor no corre-corre da vida que, por fim, acaba por não ser vivida por inteiro. Sai-se dali e corre-se para lá. Sob o controle da agenda digital que marca o tudo agora do impossível, não se "é" de forma definida para si. Formas híbridas e psicóticas de representação tentam, em vão, oferecer uma delimitação possível. No fracasso de tal sustentação, o esboço do que sou vem de fora, da grife do que não sou; ou alguma forma de embriagues freia o movimento frenético do pulsional.

"Vou ter que faltar. A agenda de meu celular se atrapalhou..."

*DADOS CARTOGRÁFICOS: Límbia é Real sem existir em lugar algum. Faz-se justiça ao cartógrafo Fabio Herrmann que a define: “Isto é Límbia, terra da ficção verdadeira. Límbia não foi inventada. É a própria invenção.” HERRMANN, F. (2002) A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas. Casa do Psicólogo: São Paulo (p.34).

domingo, 17 de setembro de 2017

KÜRZESTE CHRONIK: ESTRANGEIRO INIMIGO



Perdidas na escrivaninha de Freud, as enigmáticas 20 folhas de papel almaço, contendo uma listagem de datas e anotações concisas, escritas pela inconfundível caligrafia gótica. No começo da primeira página, o título sublinhado: "A Mais Curta Crônica".
Encontradas um mês antes da abertura do Museu Freud, em Londres (junho de 1986), coube a Michael Molnar decifrá-las, preenchendo suas lacunas, em árduo trabalho de pesquisa, que conteve uma busca minuciosa na casa 20 da Maresfield Gardens - última residência de Freud -, bem como uma série de entrevistas informais.

O "diário", que se inicia em 1929 e vai até 1939, é de uma contribuição inestimável, pois revela o "verdadeiro Freud", o homem do cotidiano em seu ambiente doméstico.

Datada de 03/abr/1930, aparece a anotação "Walter 9 anos".

1. Filho de Martin e Esti Freud, este é o único aniversário do neto que Freud registrou no Diário. Talvez, uma provável visita do garoto à Berggasse, onde seu pai passava boa parte do tempo. Anton Walter Freud não se recorda da ocasião. Lembra-se de um presente bastante curioso de seu avô, em seu décimo ou décimo primeiro aniversário: a assinatura de um ano da Revista Nacionalista Alemã, para meninos - Der gute Kamerad.
A Psicanálise é sempre uma amante cruel. Tolhe do corpo que habita, o psicanalista, a maior parte de seu tempo, afastando-o de contatos sociais, fazendo-o perder encontros típicos familiares como aniversários, casamentos... O Analista, ao longo do tempo, vai se tornando estranhamente solitário, envolto em seus pensamentos, leituras e anotações. Há de se resistir um pouco à tamanha força de atração, para que a patologia da chatice e do tédio crônicos não se colem na pele.

2. Anton Walter e seu pai emigraram para a Inglaterra em 1938, e foram ambos presos, em jun/1940, como "enemy aliens" (estrangeiros procedentes de país inimigo de guerra). Martin foi mandado para um campo de prisioneiros de guerra na Ilha de Man, e Anton para a Austrália, a bordo do navio Duneira.
Rompendo as estruturas do cotidiano do homem, fazendo com que surja o incomum e o estranho, a Psicanálise tem por destino ser uma inimiga e uma estrangeira à rotina que constrói o "e assim vamos vivendo", abalando inexoravelmente as crenças que sustentam o ser que se desconhece em si - liberdade nem sempre tolerável.

3. Libertado em out/1941, Anton Walter retorna para a Inglaterra, onde filia-se ao Corpo de Pioneiros e ao S.O.E. (Special Operations Executive), cuja missão era unir-se aos movimentos de resistência em campo inimigo. Em 1945, lançado de pára-quedas na Áustria, na região de Judenburg, resgatou sozinho e heróicamente o aeródromo de Zeltweg. Com o fim da guerra, trabalhou na Comissão de Crimes de Guerra e, em set/1946, foi desligado, recebendo a patente de major.
O Destino do herói, encontrado em tantos mitos e lendas, que percorre e delineia a própria história do homem.
O avô de Anton Walter, inicialmente rechaçado da classe médica que imperava em Viena, teria como predestinação tornar-se, ao longo de uma sólida construção clínica, envolta em sua intimidade pessoal - a autoanálise -, um dos pensadores mais importantes e contundentes do século XX, mantendo-se até hoje infiltrado nas raízes do cotidiano dos homens, amado e odiado.

OBS.: A Kürzeste Chronik encontra-se publicada no Brasil pela Artes Médicas, em belíssimo trabalho editoral e de tradução (Francis Rita Apsan) - FREUD MUSEUM (1992) Diário de Sigmund Freud - 1929-1939: crônicas breves. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.